A jovem que está à frente da Liga Solidária

Aos 46 anos, Carola Matarazzo é a mais jovem presidente que a Liga Solidária - nome atual da tradicional Liga das Senhoras Católicas - já teve. E ela deixa clara sua missão: renovar a instituição, que se prepara para comemorar 90 anos em 2013.

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2012 | 03h08

Formada em Administração de Empresas pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), ela foi dona de uma loja de tecidos para decoração e de uma marcenaria, antes de se envolver com a Liga. "Eu estava grávida de meu terceiro filho (Gabriela, hoje com 13 anos - irmã de Lucas, de 17, e Mariana, de 22), quando me chamaram para fazer um trabalho superpontual aqui. Era apenas um levantamento de custos", recorda-se. "Nunca mais saí."

Ao longo desses anos todos, ela passou por vários cargos, até chegar à presidência. Foi tesoureira e vice-presidente. Dedicação integral: pelo menos 8 horas por dia a serviço da instituição - e celular ligado no restante do tempo. "Se perguntam minha profissão, costumo responder que sou voluntária profissional", diz ela. "Mas o que acontece é que sou uma sonhadora. Quando percebo que temos condições emocionais e intelectuais de ajudar outras pessoas a mudar de vida, acredito que devemos colocar a mão na massa. Isso é o que me move."

Trabalho. Os números ajudam a fundamentar o discurso de Carola. Sem fins lucrativos, a organização social que ela preside atende atualmente cerca de 3,4 mil pessoas - graças ao trabalho de 300 funcionários e 200 voluntários. A Liga Solidária administra oito Centros de Educação Infantil (CEIs), quatro abrigos e oito programas socioeducativos.

A mais jovem presidente da instituição luta para consolidar um processo de modernização que vem da gestão anterior. Uma imagem resume bem essa mudança: antes era apenas um computador nas salas administrativas da Liga; hoje são 300, todos interligados, acelerando a gestão.

A mais visível mudança, porém, está no nome. Em 2007, a instituição deixou de ser Liga das Senhoras Católicas e foi rebatizada de Liga Solidária. "Não se tratava de nenhum ranço com o nome antigo", apressa-se em explicar Carola. "Mas acreditamos que o novo nome é mais moderno. E a palavra 'solidária' é a que melhor sintetiza o nosso trabalho ao longo de toda a história da instituição."

Ela deixa claro que ser "senhora" ou ser "católico" nunca foi pré-requisito para participar como voluntário ou ser atendido pela organização. Faz tempo que há homens que também atuam na Liga - embora, até hoje, nenhum tenha se tornado presidente.

"E diz o nosso estatuto que somos apartidários, arreligiosos, 'atudo'", garante ela, que é devota de Nossa Senhora das Graças - durante a entrevista, na última quinta-feira, usava uma medalhinha com a imagem da santa. "Sou católica praticante (frequentadora assídua da Capela São Pedro e São Paulo, no Morumbi). Foi para me inspirar que trouxe esse crucifixo aqui para a sala da presidência (aponta para a cruz). Mas essa Nossa Senhora da Conceição já estava aí, não fui eu quem trouxe", explica, mostrando a imagem, ao lado da porta de entrada de sua sala, na sede administrativa da Liga, no bairro de Pinheiros - ela mora no Jardim Paulistano e é casada com o economista Olímpio Matarazzo Neto, coincidentemente, bisneto de uma das "senhoras católicas" fundadoras da liga, Amália Matarazzo.

Carola sabe que terá muito trabalho durante as comemorações dos 90 anos da Liga. Um trabalho que já começou. "Estamos fazendo os projetos, tentando aprová-los. Então, vai começar a hora de captar recursos para executá-los", explica. Entre os planos estão uma exposição, um jogo de futebol com artistas famosos, um documentário e um livro contando a história da instituição. "Estamos pensando em um livro colaborativo. Vamos convidar as pessoas que sabem de alguma história da Liga a postar no Facebook. Aí reuniremos esse material todo", conta.

'Antigos'. Funcionários da instituição têm recebido bem a novidade de uma jovem no cargo. Entre os mais antigos, aliás, três se destacam pela história em comum: Afonso Alones, de 86 anos, Reginaldo Caetano Vasconcelos, de 72, e Carlos Alberto de Araújo, de 68, foram, quando crianças, atendidos pelo abrigo da Liga. Depois, tornaram-se funcionários. Até hoje vivem lá, no Educandário Dom Duarte, na zona oeste de São Paulo, perto da Rodovia Raposo Tavares. "Ela (Carola) é muito atenciosa com a gente", diz Carlos.

"Nunca quis sair daqui. Sempre fui meio caladão, fechado", conta ele. "Também nunca me casei. Afinal, para procurar mulher, tem de saber conversar, saber escolher mulher. E eu sou meio tímido. Mas se der na telha, ainda me caso."

Aos 46 anos, Carola quer modernizar a nonagenária ex-Liga das Senhoras Católicas

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