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Fernando Reinach
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A Internet dos Bichos

Eu lembro do dia em que descobri que observar animais era fascinante. Foi em 1984, no dia em que conheci Marcio Ayres. Eu tinha passado quatro anos debruçado sobre tubos de ensaio em Nova York. Ele tinha passado quatro anos olhando para as copas das árvores na Floresta Amazônica.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2015 | 03h00

Dois biólogos não poderiam ter um passado tão diferente. Marcio já era famoso antes de começar a escrever seu doutoramento. No final do século 20, quando já era quase impossível descobrir novos mamíferos, Marcio tinha descoberto duas espécies de macacos nas áreas inexploradas da Floresta Amazônica. Era um dos biólogos que mais tinham observado o comportamento de macacos no seu hábitat natural. Naquele jantar ele me contou como passava semanas vagando pela floresta, seguindo bandos de macacos que habitavam a copa das árvores. Ele ia aonde os macacos iam, vagando sem rumo pela floresta inexplorada, sempre olhando para cima, ao sabor da vontade dos macacos.

Os macacos acabavam se acostumando com aquele humano rastejante que passava semanas olhando para eles, coletando as sementes das frutas que eles comiam e as fezes que despencavam do alto das copas. Se os macacos dormiam, Marcio dormia no chão, se eles andavam de copa em copa, Marcio andava. Isso durante quatro anos, com voltas ocasionais para Tefé para ver a família. Marcio morreu cedo, mas antes criou a Reserva de Mamirauá, uma área enorme na Amazônia onde vivem seus macacos. Daquele dia em diante, passei a acompanhar os cientistas que acompanham os animais.

Dez anos mais tarde, em 1994, um grupo de cientistas capturou na Alemanha a famosa Princesa, uma cegonha branca (Ciconia ciconia). Quando Princesa foi capturada ainda era uma jovem adolescente. Os cientistas colocaram nela um pequeno radiotransmissor e a soltaram. Naquele ano ela voou até o Sul da África, e os cientistas a seguiram, não visualmente como fazia Marcio, mas com um sistema chamado Argos. As migrações anuais de Princesa foram acompanhadas por 12 anos, até sua morte, em 2006.

Todo ano ela ia até a África do Sul e voltava para a Alemanha, passando por Israel. Princesa foi recapturada diversas vezes para que a bateria do seu monitor fosse trocado, e quatro gerações de monitores do sistema Argos estiveram nas suas costas. Hoje centenas de rotas migratórias, de dezenas de cegonhas, estão depositadas em um banco de dados que todos podemos consultar. Descobrimos que parte das cegonhas prefere contornar o Saara pelo leste e sobrevoar Israel. Parte prefere a costa Atlântica e cruza por Gibraltar. E algumas, destemidas, cruzam o Deserto do Saara, mas não ousam atravessar o Mediterrâneo até a Itália. 

O Projeto Argos é um sistema que todo cientista pode usar. É um satélite que sobrevoa toda a Terra e capta os sinais de rádio emitidos por pequenos instrumentos. Esses instrumentos podem ser colocados em macacos, aves, tigres, boias oceânicas, tubarões ou em qualquer objeto ou ser vivo que se queira acompanhar. No início, esses emissores tinham somente um GPS e uma bateria e mandavam para o satélite a posição do objeto. Hoje, possuem GPS, acelerômetros, sensores de temperatura e qualquer outro sensor que um cientista queira adicionar. As baterias foram substituídas por células fotovoltaicas e o tamanho do sensor tem sido reduzido a cada ano. Com a diminuição do tamanho veio a diminuição do animal que pode ser monitorado. Hoje qualquer animal com mais de 250 gramas pode ser monitorado e milhares desses sensores estão espalhados pelo planeta enviando dados para o satélite. Esses dados são enviados do satélite para estações terrestres, que as enviam para os cientistas via internet.

Até você, caro leitor, pode acompanhar em tempo real as andanças de tubarões e aves pelo planeta. Basta baixar um app. O Shark Tracker e o Animal Tracker são muito bons. Enquanto ainda se discute por aí a chegada da Internet das Coisas, os cientistas já implementaram, faz décadas, a Internet dos Bichos. Ela nos ajuda a conhecer melhor esse lindo planeta que não queremos destruir.

MAIS INFORMAÇÕES: TERRESTRIAL ANIMAL TRACKING AS AN EYE ON LIFE AND PLANET. SCIENCE VOL. 349 PAG. 2478 2015

FERNANDO REINACH É É BIÓLOGO

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