A imortalidade rodeada pela fartura

Academia Brasileira de Letras (ABL), nascida na 'miséria', vive agora em meio ao luxo proporcionado por milhões de reais em caixa

Márcia Vieira / RIO, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

O termo imortal para designar os 40 membros da Academia Brasileira de Letras veio de uma frase de Olavo Bilac. "Somos imortais porque não temos onde cair mortos." De fato, em 1897, quando o poeta participou da fundação da ABL ao lado de Machado de Assis e Joaquim Nabuco, a academia vivia na miséria.

Não tinha nem sede própria. Os acadêmicos pagavam do próprio bolso o funcionamento numa sala improvisada. De empregados, apenas uma secretária e um faxineiro. E olhe lá. Em 1900, numa carta enviada ao amigo Machado, Nabuco fez um apelo: "Não deixe morrer a academia."

Não só não morreu, como os tempos de penúria estão definitivamente no passado. Nunca houve tanto dinheiro em caixa. Esta foi uma década de ouro para a ABL. Ela já não depende mais da benevolência alheia. "A Academia Francesa, com séculos de história, vive de subvenções", compara Marcos Vilaça, que preside a ABL pela terceira vez.

Mais do que isso. Hoje, ela se transformou numa entidade abastada, com participação ativa na vida cultural brasileira. Sua renda anual, em torno dos R$ 12 milhões, é quatro vezes o orçamento do Museu Nacional de Belas Artes em 2009. "A ABL, hoje, é a principal grife cultural do País. Não há nada que tenha sua importância", enaltece Vilaça.

Ministro do Tribunal de Contas da União, Vilaça não gosta de falar em dinheiro. O assunto o aborrece. "Somos pobres e soberbos", desconversa. No último balanço publicado no seu site, referente a 2006, a ABL tinha em caixa mais de R$ 20 milhões. Desde 1999, ela recebe os aluguéis de 27 andares do edifício comercial Palácio Austregésilo de Athayde, um dos mais valorizados do centro do Rio. O prédio é fruto de uma transação política que durou 15 anos. A academia não investiu um tostão, mas virou proprietária do edifício.

Lá funcionam 36 empresas. Todas as salas estão ocupadas num momento excepcional para o mercado imobiliário. "Não sei quanto rendem os aluguéis. Não é muito. Só dá para o feijão com o arroz", diz Vilaça. Não é bem assim. Se todas as salas fossem alugadas a preços atuais de mercado, renderiam R$ 3,5 milhões mensais. Em 2006, renderam R$ 1,1 milhão por mês. Hoje, 98% da receita vem desses aluguéis.

Em 2007, o orçamento anual foi de R$ 11, 6 milhões, além dos 30% da renda líquida dos aluguéis (R$ 4, 1 milhões), que, pelo regimento da casa, devem ser investidos num fundo para emergências. Vilaça também se recusa a comentar o valor do jetom pago aos imortais. Alega que a ABL é uma entidade particular que não precisa se justificar.

As sessões se realizam duas vezes por semana. Quem comparece leva para casa R$ 1 mil em dinheiro. A frequência média é de 20 imortais. A escritora Nélida Piñon não fala em valores, mas diz que é uma ajuda significativa. "Celso Furtado e Evandro Lins e Silva (já falecidos) diziam, por exemplo, que graças ao jetom eles nem precisavam ir ao banco pegar dinheiro", lembra Nélida.

Ela presidiu a ABL no tempo das vacas magras. E enaltece a fase de fartura. "Além da glória literária, a ABL dá hoje essa rede de proteção aos acadêmicos. Esse dinheiro é nosso, nós o administramos segundo nossos desejos. Os acadêmicos merecem. Afinal, não vivemos de ar."

Facilidades. De fato, ser imortal não traz só prestígio. Além dos jetons, os imortais têm plano de saúde, honorários em palestras e mausoléu. O plano de saúde costuma render queixas. Numa assembleia, Carlos Nejar reclamou de problemas com o seguro. Recebeu apoio geral. Hélio Jaguaribe propôs mudar de seguradora. Não foi possível. Como lembrou Ivan Junqueira, a academia havia procurado outras empresas, mas elas não dispunham de "produtos para uma instituição formada por usuários cuja idade ultrapassa qualquer perspectiva dos seguros de saúde". O assunto morreu.

A última novidade, sinal de modernidade, é a distribuição do leitor de livros digitais Kindle, que custa cerca de R$ 1 mil. Quem quiser, terá o seu bancado pela ABL. "O Paulo Coelho não precisa. Ele já tem", alfineta Vilaça, que não esconde o desconforto em ter o mago na casa. Coelho nunca aparece. Nem para votar, muito menos para o chá.

Apesar do investimento no Kindle, tem imortal que não sabe do que se trata. "Serve pra quê? Liga na tomada?", especula Affonso Arinos, de 79 anos. Ele vê uma grande vantagem na boa situação financeira da academia. "Ela saiu da sua torre de marfim e se abriu para a sociedade", acredita. "A ABL é um mito importante. Aqui estiveram Machado de Assis, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Joaquim Nabuco."

Esse passado glorioso é que define para Vilaça a imortalidade. "É o compromisso com a memória dos que nos antecederam. Por isso somos imortais." A definição de Bilac ficou de vez no passado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.