A hora e a vez do açúcar

O açúcar apareceu como protagonista de dois interessantes artigos na última semana. As principais conclusões: o que engorda nos dias de hoje é a má alimentação e não o sedentarismo, e é tão difícil parar de comer doces porque essa pode ser uma importante via de controle do estresse.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2015 | 02h01

O primeiro trabalho, publicado no British Journal of Sports Medicine, revelado pelo site da BBC Brasil, traz a visão de pesquisadores do Reino Unido, África do Sul e dos Estados Unidos de que o açúcar seria hoje o grande responsável pela epidemia de obesidade que o mundo enfrenta.

Para eles, a política de marketing da indústria alimentícia de defender que a atividade física compensaria calorias adicionais e efeitos negativos da má alimentação é incorreta.

O exercício teria um papel moderado na perda de peso, ao passo que uma dieta de qualidade seria uma medida muito mais efetiva para alcançar esse objetivo. Segundo os pesquisadores, calorias provenientes de açúcar e carboidratos provocariam maior risco de depósito de gordura e gerariam ainda mais fome, enquanto calorias que se originam em alimentos gordurosos trariam maior sensação de saciedade.

Mas nem todo mundo concordou com o artigo. Para boa parte dos especialistas, a associação entre atividade física e boa alimentação ainda é a melhor receita para quem quer perder peso e se manter saudável. Para eles, a visão de que o açúcar teria um papel mais importante do que a vida sedentária na epidemia de obesidade seria bastante parcial.

Doce e estresse. O segundo artigo tenta mostrar por que muita gente come doces para aliviar tensões. O açúcar reduziria os níveis do hormônio cortisol, liberado em situações de estresse. Já se suspeitava que essa via metabólica funcionava em roedores e a nova pesquisa teria conseguido demonstrar que ela pode atuar também em nós.

Cientistas da Universidade da Califórnia (EUA) avaliaram grupos de mulheres que tomaram, durante duas semanas, bebidas adoçadas com aspartame (um adoçante artificial) ou com açúcar. Eles mediram o nível de cortisol na saliva delas e analisaram imagens do cérebro com exames de ressonância magnética, em momentos em que elas faziam testes matemáticos muito difíceis, potencialmente geradores de estresse.

O trabalho, publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, trazido pelo jornal The New York Times, mostra que, antes da dieta, todas as mulheres tinham níveis de cortisol semelhantes. Depois das duas semanas, o cortisol diminuiu no grupo que recebeu açúcar, mas não no que recebeu aspartame. A ressonância magnética também mostrou menor fluxo de sangue para áreas do cérebro relacionadas ao medo e ao estresse nas mulheres que consumiram açúcar.

Longe de indicar que as pessoas deveriam consumir açúcar e carboidratos para reduzir a ansiedade, a pesquisa sugere porque pode ser tão difícil parar de comer doces. Ao reduzir sensações desagradáveis geradas pelo estresse, alimentos com açúcar trazem algum grau de conforto e sensação de prazer. E mudar isso pode ser bem complicado!

Como o consumo exagerado de açúcar e o estresse crônico são hoje questões importantes de saúde pública, já que ambos podem contribuir para um aumento da obesidade, é importante pensar em estratégias e tratamentos que tenham como objetivo dissociar essa combinação. Mesmo que se leve em conta que a atividade física tem um papel central no controle da obesidade, não seria nada mal que as pessoas percebessem que é importante comer cada vez menos açúcar, mesmo sabendo que ele pode fazer com que a gente se sinta mais calmo e feliz. Difícil, não?

É PSIQUIATRA

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