DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

A história do Butantã

Bairro da zona oeste teve sua trajetória pautada principalmente pelas atividades do instituto e da Cidade Universitária

O Estado de S. Paulo

16 Novembro 2015 | 15h50

Em 1607, o bandeirante português Afonso Sardinha instalou em sua fazenda, já na época chamada de Butantã, o primeiro engenho de açúcar da vila de São Paulo. Sardinha não tinha herdeiros e anos depois suas terras seriam doadas aos jesuítas. Com a expulsão dos religiosos do Brasil, no século XVII, elas acabaram confiscadas pelo estado. As propriedades passariam então pelas mãos de muitas pessoas. Um dos últimos donos esteve na família Vieira de Medeiros. Ele as vendeu para a Companhia City Melhoramentos em 1915 – a City foi a responsável pela urbanização de muitas áreas às margens do rio Pinheiros, em loteamentos planejados.

Cobras e lagartos. Dois fatores selaram o destino do bairro. Primeiro, entre 1898 e 1899, o médico Vital Brazil Mineiro de Campanha iniciou suas pesquisas contra a peste bubônica na Fazenda Butantã. A doença havia sido identificada no porto de Santos e era uma ameaça séria. Era esse o embrião do Instituto Butantan, destinado à fabricação do soro antiofídico. Ele seria inaugurado em 1901 e se converteria rapidamente em um dos mais importantes centros de pesquisa do mundo, ganhando investimentos e novos laboratórios. Ao seu redor, na medida em que a população aumentava, muitas pessoas se transferiam para “esse lado” do rio a fim de trabalhar no laboratório ou de empreender oferecendo serviços e comércios que se faziam cada vez mais necessários.

Outra transformação significativa no bairro ocorreu a partir do surgimento da Universidade de São Paulo (USP). A Cidade Universitária foi criada em 25 de janeiro de 1934, no aniversário de 380 anos da capital. Não seria a primeira universidade brasileira, mas a primeira a reunir instituições já existentes e centralizadas numa faculdade de filosofia, ciências e letras destinada à pesquisa e à formação de professores. A ela se juntaram as faculdades de direito, engenharia, medicina, farmácia e odontologia (todas com sede em São Paulo) e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba. O local escolhido para estabelecer a instituição foi parte da Fazenda Butantã, que tinha 5 milhões de metros quadrados e pertencia ao governo do estado. Era uma instalação impressionante que além de tudo acabou virando, ao longo dos anos, um importante espaço de lazer ao ar livre.

A chegada do Jockey Club, fundado na Mooca em 1875 e transferido para o vizinho Cidade Jardim na década de 30, também interferiu na paisagem e na vida, ao contribuir para um afluxo maior de visitantes e de moradores e exigir melhor infraestrutura de comércio e serviço.

Os dois lados do Rio. A ponte Eusébio Matoso, continuação da avenida, sempre foi a mais importante ligação do bairro com o “outro lado do rio”. Passou a funcionar em 1940 no lugar de uma ponte metálica desmontada alguns anos antes e que de certa forma cumpria essa função desde 1865.

O documentário Enraizados, produzido para recontar a história do bairro pela voz de seus mais antigos moradores, explica que até a metade do século passado Pinheiros era o bairro comercial e o Butantã era mais primitivo. Era só mato e terra, um lugar em que a meninada andava de bicicleta, catava passarinho, jogava futebol nos campos de várzea, brincava na floresta e saltava pedras no Rio Pinheiros (e na brincadeira até chegava a atravessar para o outro lado). Depois do Instituto Butantã (1901), em 1922, foi fundado o Clube Atlético Butantã (de futebol). Dentro do Instituto, no ano de 1932, inaugurou-se o Grupo Escolar Rural Alberto Torres, aonde os alunos trabalhavam em horta, estudavam os bichos e cultivavam e colhiam verdura para a sopa escolar – essa escola existe até hoje no número 1260 da Vital Brasil e o antigo prédio fica nos limites da USP. O cinema Eldorado, aberto em 1950, foi por muito tempo uma poderosa fonte de lazer para os moradores. Na mesma avenida da escola, ocupava um espaço na altura do 427.

Bairro e distrito da zona oeste atravessado pelos quilômetros iniciais da rodovia Raposo Tavares, o Butantã tem hoje mais de 54 mil habitantes. É atendido pela linha 4 amarela do metrô e contém duas dezenas de bairros, entre eles City Butantã, Caxingui e Jardim Previdência. Há localidades de alto padrão e muitas favelas próximas. Suas principais avenidas são a Vital Brasil, a Eusébio Matoso e a Corifeu de Azevedo Marques.

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