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A história do Brás

Conhecido pelo comércio popular, bairro ítalo-paulistano cresceu em torno de uma igreja

O Estado de S. Paulo , O Estado de S. Paulo

24 Agosto 2015 | 16h17

Muita coisa mudou desde que o Brás surgiu, em atmosfera rural, no meio do caminho entre o centro e a Penha e desde que o Tamanduateí era um rio cheio de vida onde as crianças nadavam, as mulheres lavavam roupa e em cujas margens se comercializava peixe fresco. 

Os trilhos cortaram o bairro, fez-se erguer porteiras para controlar o trânsito de ferrovia, gente, bichos, carros e carroças. As indústrias chegaram. A Hospedaria dos Imigrantes (e a italianada), também. Cortiços, casinhas, uma vida dura e pobre. Os operários e as greves. Os nordestinos fugindo da seca. O comércio popular. 

O Estado reuniu a seguir uma coleção de retalhos sobre esse que é um dos mais tradicionais bairros pautados por sotaques e sabores italianos e nordestinos, a indústria e o comércio. 

1. O Brás começou rural

Na metade do século XVIII (e no início do XXI), quando São Paulo era uma vila povoada principalmente por índios e escravos, a região hoje ocupada pelo Brás era um complexo de chácaras de atividade agrícola, isolado por um depósito de lixo e pela várzea do Carmo, um alagado do Rio Tamanduateí. 

2. Benemérito José Brás

Naquele tempo, havia um português dono de terras chamado José Brás. Ele teria feito melhorias na região e mandado construir a capela do Senhor Bom Jesus do Matosinhos, que viria a ser a matriz do bairro. Ao redor dela, um povoado tomaria corpo. Há uma praça em homenagem ao português. Ela se chama Benemérito José Brás e fica na saída da estação Brás do metrô. A capelinha, demolida em 1904, foi substituída pela igreja do Brás que conhecemos hoje. 

3. A primeira igreja

 "A igreja do Brás passou por várias reformas, mas também começou como uma capela rústica e pequena. Mas não sobrou nenhum desenho de como era. É a isso que eu chamo de desmemoria", diz o jornalista e escritor Lourenço Diaféria, neste documentário sobre o bairro inspirado em suas memórias. Ele nasceu no Brás em 1933. "Há pessoas que passam vezes e vezes por aqui, mas por receio do escuro deixam de descobrir uma das mais belas igrejas da cidade."

4. A origem do nome

No livro "Bairros Paulistano de A a Z", Levino Ponciano escreve: "A chácara [de José Brás] ficava na margem de uma estrada que levava à Penha. Determinado trecho a estrada, que era conhecida como Caminho do José Brás, passou a ser a Rua do Brás, hoje com o nome de Avenida Rangel Pestana. Essa seria uma das mais aceitas teorias sobra a origem do nome do bairro. Outras duas: Brás Cubas passou por ali e fundou uma vila; o filho da Marquesa de Santos, Brasílico, seria o principal dono de terras do lugar. 

5. O Tamanduateí era uma espécie de Facebook das lavadeiras

"O Tamanduateí tinha lavadeiras. Todos os dias as lavadeiras compareciam ao trabalho rotineiro de lavação. Só isso? É. Isso e outras coisas. As lavadeiras aproveitavam a oportunidade para respingar maledicências na vida alheia. Contavam-se coisas que ninguém sabia, mas queria saber. Ou sabia, mas só contavam na beira do rio, fofocando. Muitas vezes a conversa engrossava (...) e aconteciam brigas. Chamava-se briga de lavadeira o bate-boca que tinha mais barulho que outra coisa”, descreveu Diaféria.

6. Do gás fez-se a luz

Até 1872, a iluminação pública da cidade era feita basicamente por lampiões a óleo. Então estabeleceu-se no Brás a São Paulo Gas Company. A iluminação a gás foi um tremendo avanço, preparando o terreno para a luz elétrica (início do século XX). O complexo do Gasômetro hoje é ocupado por uma base operacional da Comgás.

7. O trem e as porteiras

O trem, que desde 1865 com a companhia inglesa São Paulo Railway (Santos-Jundiaí) mudava a fisionomia urbana e tinha como principal função levar o café das fazendas para exportação a partir de Santos, também transformou o Brás. "Porteiras acionadas manualmente comandavam o tráfego, para grande irritação de motoristas, cocheiros, passageiros e pedestres", escreve Roberto Pompeu de Toledo em "A Capital da Vertigem". A primeira versão da Estação Brás surgiu em 1867. Com o surgimento da Estrada de Ferro do Norte, futura Central do Brasil, trens partiam do coração do Brás também para o Rio de Janeiro. 

8. Chegam os imigrantes

No fim do século XIX e começo do século XX a vida em São Paulo se transformava pela dinâmica do café com a estrada de ferro, a imigração e a industrialização. Os industriais viviam na região da paulista, mas escolheram montar suas fábricas perto dos trilhos, por causa do transporte e pela conveniência de escoar a produção e porque os terrenos por ali eram baratos. A maioria dos operários era imigrante. O Brás se consolidava como um bairro pobre, operário e formado por, em sua maioria, estrangeiros.

9. Hospedaria dos Imigrantes

Com o fim da escravidão, a imigração foi promovida no Brasil. A ideia era substituir os escravos nas fazendas. De fato, boa parte dos estrangeiros chegava por Santos e era levada de trem para a lavoura no interior do estado de São Paulo. Outros tantos, porém, escapavam desse roteiro por não ter afinidade com o campo ou por querer fugir dos maus-tratos nas fazendas. Ficando na cidade, os imigrantes iam trabalhar na indústria e no comércio. Para receber toda essa gente em trânsito foi erguida a Hospedaria de Imigrantes, na rua Visconde de Parnaíba, 1316. Brás. Estima-se que 2,5 milhões de pessoas passaram por ali desde a fundação em 1882 e até 1978. No mesmo prédio, hoje, funciona o Memorial do Imigrante.

10. Cortiços e casinhas geminadas

Francisco Matarazzo foi um dos poucos empresários que chegou a morar por algum tempo no Brás, na rua do Gasômetro. A maioria preferia viver na Paulista. Eram os operários que viviam no bairro, em cortiços e casinhas geminadas. Empoeirado e barulhento, e sujeito a alagamentos, o Brás era barato.

11. Chaminés

As primeiras fábricas de Matarazzo foram instaladas na Monsenhor Andrade, bem como a Companhia Mecânica Importadora (Alexandre Siciliano) e, na Rodrigues Santos, as fábricas de juta e lã de Antônio Álvares Penteado. Tomado por chaminés e apitos, o Brás, assim como a Mooca, o Bom Retiro e o Bexiga, se estabelecia como bairro operário e, em grande medida, ítalo-paulistano. 

12. A primeira greve geral: estopim e encerramento no Brás

A vida em função das fábricas era bastante complicada. Em muitos casos, trabalhavam homens, mulheres e crianças em regime cruel: muitas horas seguidas e também à noite, sem férias, sem dia certo para receber. Em junho de 1917, ensaiava-se a primeira greve geral, a partir de um cotonifício da Mooca. Foi quando soldados tentaram interromper uma manifestação no Brás e o sapateiro espanhol Martinez morreu em uma troca de tiros. Seu enterro reuniu multidões. E a greve geral de fato começou. Em julho, durante assembleia no Brás, o movimento foi dado por encerrado. As reinvindicações, atendidas (adicional noturno, férias, oito horas de trabalho, nada de funcionários com menos de 14 anos etc.). O Estado fez a cobertura das chamadas "agitações operárias".

13. A chegada dos nordestinos

Nos anos 40 eram os nordestinos, fugindo da seca, que chegava ao Brás e iam para a Hospedaria dos Imigrantes. Aos poucos, e principalmente anos setenta, os migrantes iam transformando a imagem do comércio, vendendo em praça, estabelecendo a cultura local do comércio popular que, no Brás, existe até hoje no formato de lojas de atacado e ruas temáticas de compras. 

14. A chegada do metrô

A chegada o metrô nos anos 70 foi considerada por muitos moradores como uma transformação traumática. Para que fossem estabelecidas as estações, muitas casas e cortiços foram desapropriados. O bairro da italianada e dos migrantes nordestinos sentiu a mudança.

15. O comércio popular

As ruas do Brás fervem durante a semana e se aquietam aos domingos. As lojas populares tomaram o lugar das casas e do comércio de antigamente. "Quem se lembra da Confeitaria Guarani?", pergunta, no filme, Lourenço Diaféria. Será que em seu lugar há uma agência bancária ou alguma loja? “Todos os domingos de manhã, depois da missa, eu comia um doce da Confeitaria Guarani. Eu escolhia sempre o mesmo doce.”

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