Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

A história do Belém

A trajetória do bairro, que nasceu estação climática, no fim do século XIX, e guarda até hoje a mais antiga vila operária do Brasil

O Estado de S. Paulo

10 Novembro 2015 | 16h10

Bairro e distrito, o Belém fez parte da mancha fabril que tomou conta de boa parte de São Paulo no começo do século XX e incluía Bom Retiro, Brás, Mooca e Tatuapé, entre outras localidades. Sua história começou um pouco antes, porém quando por volta de 1880 a região ganhou notoriedade pela altitude, o arvoredo e o ar bom para respirar. Muitos ricos instalavam-se lá no alto com suas chácaras e casarões. Aos que tivessem doenças respiratórias era recomendada uma temporada no Belém. 

Como os primeiros moradores eram devotos de São José do Belém, em julho de 1897 foi criada uma paróquia em seu nome. Dois anos depois, em junho, o Belenzinho surgiu como distrito de paz. 

Foi ao redor da capela que a região de sítios e pomares se converteu em localidade de perfil mais urbano, ocupado por brasileiros e imigrantes vindos de lugares muito diferentes, cortado pelo trem, percorrido pelo bonde 24 (a conexão com o centro) e seus vagões especiais, mais baratos para os operários e sempre lotados no começo e no fim do expediente.

Perto das fábricas viviam os empregados. Os palacetes dos proprietários eram instalados na Avenida Celso Garcia. O letreiro do bonde não comportava o diminutivo e o nome do bairro acabou encolhido para caber. Virou Belém - o Belenzinho ainda existe e faz parte do distrito.

As primeiras indústrias chegaram por volta de 1910. Eram principalmente vidrarias e tecelagens. Em pouco tempo a população dobrou e o Cinema Belém, o primeiro da região, foi inaugurado. Aos domingos, havia futebol de várzea. Não faltavam campinhos e clubes, como o Estrela de Ouro e o Juta Belém.

Vila operária. Em 1911, o industrial Jorge Street, da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, promoveu a mais famosa tentativa de melhorar a vida dos operários na cidade - e de vigiá-los também. Street comprou um terreno que ia da Celso Garcia ao Tietê e ali começou a construir a fábrica Maria Zélia e uma vila anexa, onde viveriam os empregados.

O revolucionário projeto chegou a fazer bastante sucesso, mas acabou desaparecendo quando o empresário faliu - seis anos depois de abertas, ele se desfez da fábrica e da vila. Durante a ditadura do Estado Novo, entre os anos de 1936 e 37, a cidadela foi utilizada como presídio de presos políticos.

A vila operária Maria Zélia, ponto histórico mais representativo do Belém, foi inaugurada em 1917 - o ano da primeira grande greve geral, que aos poucos traria conquistas aos trabalhadores, como os descansos no fim de semana. Existiram outras vilas do tipo em São Paulo, mas nenhuma como ela, um combustível da transformação maior do bairro. Suas instalações eram consideradas modelo. "Os tecelões faziam fila para conseguir vaga no recém instalado estabelecimento fabril. A Vila Maria Zélia surgiu como uma autêntica cidade moderna, no bairro ainda meio atrasado", escreveu em suas memórias o autor Jacob Penteado, que viveu no bairro naquela época.

O último bonde. Em 1924, ano da violenta Revolução pelo fim das oligarquias políticas e cujos conflitos deixaram 500 mortos, o Belenzinho sofreu bastante. Muitas bombas foram jogadas na região, por causa do grande número de fábricas do bairro. A cidade cresceu, as indústrias foram embora. Os velhos galpões fabris que chegaram a dominar a paisagem atualmente estão abandonados ou deram lugar a empreendimentos imobiliários. O bairro aos poucos foi se esvaziando. Seus enormes terrenos passaram a ser cobiçados para se explorar novas facetas da região.

No lugar do Moinho Santista, uma das maiores fábricas do Belém e que chegou a ter 4 000 funcionários e a operar sem intervalo, 24 horas por dia, hoje funciona o Sesc Belenzinho. O último bonde passou pelo bairro na década de 60. Em 1957, foi aberta a Radial Leste, atualmente a principal via de trânsito rápido e que rasga todo o bairro. "Mas no Belém, a herança do estilo de vida das vilas operárias persiste. O encontro na padaria, na banca de jornal, o passeio na praça", diz o personagem Daniel, bisneto de imigrante e morador do bairro, no nostálgico documentário sobre sua história e o tempo em que "dava lambari pra caramba", quando se pescava no Tietê.

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