'A história deles também é a minha'

O corpo enxuto, a fala bem articulada e a vivacidade de Suzana Silva Neves não denunciam os 52 anos, oito filhos e a história dramática. "Disseram que para entrar no projeto tinha de ter algum problema social, ter se sentido excluído. Quando fui conversar com a coordenadora ela disse: 'era para ter um problema social. Não precisava ter todos'."

RIO, O Estado de S.Paulo

25 Março 2012 | 03h04

Suzana é filha de dois adolescentes: a empregada, de 13 anos, e o filho do patrão, de 16. Foi abandonada. Até os 9 anos, teve pais adotivos carinhosos. Quando eles morreram, foi entregue a outra família.

Começou um histórico de maus-tratos que duraria mais de três décadas. Apanhou para fazer serviços domésticos, comeu sobras, dormia em esteira na cozinha, sofreu abuso sexual. "Foi um choque. Eu era mimada pelos meus pais. O resto foi pior, mas aí eu já estava ficando calejada."

Fugiu para o Rio. Tentou trabalhar como prostituta: usou drogas e bebeu para enfrentar a dureza do trabalho. Não funcionou. Virou cozinheira do bordel, mas não deixou o vício. Teve oito companheiros, um filho com cada um deles, apanhou de todos. Teve até quem tentou assassiná-la a facadas.

Viveu na rua com os filhos. E só não estava na Candelária quando houve a chacina em que oito moradores de rua foram assassinados porque soube que davam sopa em outra rua do centro.

Virada. Foi aí que decidiu mudar de vida. Foi assentada pela prefeitura em um conjunto habitacional, 18 anos atrás. Os meninos mais velhos não se adaptavam às regras da escola. Ela percebeu que eles a imitavam em tudo - largou as drogas e matriculou-se também na escola, concluiu os estudos. Fez pequenos serviços, como arrumar a casa de vizinhos, reciclagem de lixo.

Hoje vive com quatro dos oito filhos - uma ficou com o pai, dois foram levados pelo Conselho Tutelar, o mais velho dos meninos envolveu-se com drogas. "É duro olhar olho no olho e não reconhecer o filho. O primeiro sintoma é sempre o mesmo: eles se afastam da escola, se afastam de você."

Para ouvir as histórias de pessoas que vivem os mesmos dramas, calça sapatos plásticos de salto, acessórios cor-de-rosa, bolsa da mesma cor. "Foi tudo tão ruim, mas vou poder fazer alguma coisa pelos outros. A história deles também é a minha."

Solução. Os relatórios das visitas são entregues para a equipe técnica de assistentes sociais e psicólogos da prefeitura, que ficam nas Estações da Cidadania. O sucesso do programa está ligado à capacidade de o governo municipal resolver essas questões. Se ficarem pendentes, sabe-se que as mulheres da paz perderão a credibilidade nas comunidades. "É um compromisso. É por isso que temos coordenadores que atuam no local para fazer referência com a rede assistencial da região", afirma o secretário de Assistência Social, Rodrigo Bethlem. /CLARISSA THOMÉ

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