A história de amizade com uma comunista

Esther, uma das fundadoras das Mães da Praça de Maio e morta pela ditadura, foi enterrada em igreja graças a Bergoglio

ARIEL PALACIOS, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2013 | 02h08

Esther Ballestrino de Careaga era comunista e ateia. No entanto, graças ao cardeal Jorge Bergoglio, atual papa Francisco, ela está enterrada no jardim da frente da Igreja da Santa Cruz, no bairro portenho de San Cristóbal. Esther, uma bioquímica, foi chefe do jovem técnico químico Bergoglio, quando ele tinha 21 anos, em um laboratório de controle de alimentos em Buenos Aires. No entanto, entre a amizade dos dois - que incluiu longas conversas sobre marxismo e o empréstimo mútuo de livros - e o enterro de Esther transcorreu quase meio século de turbulenta História argentina.

Esther nasceu no Uruguai e criou-se no Paraguai. Mas teve de exilar-se na Argentina em 1947, quando foi perseguida pela ditadura paraguaia por suas atividades como militante de esquerda e líder feminista.

Na biografia O Jesuíta, escrita pelos jornalistas Francesca Ambroggetti e Sergio Rubin, Bergoglio conta que Esther foi uma "chefe extraordinária, simpatizante do comunismo. Eu gostava muito dela. Me ensinou a seriedade do trabalho. Realmente, devo muito a essa mulher". Na época, Bergoglio estava começando os estudos religiosos.

Após o golpe militar de março de 1976, os militares começaram a sequestrar militantes de grupos políticos que opunham-se à ditadura. No total, nos sete anos seguintes, a ditadura sequestraria, torturaria e assassinaria ao redor de 30 mil civis.

As mães de jovens desaparecidos, preocupadas pelo paradeiro de seus filhos, começaram a reunir-se para pedir sua liberação. Esther, que teve sua filha Ana María Careaga sequestrada em 13 de junho de 1977 e liberada em outubro do mesmo ano, participou desde o início de um desses grupos que deu origem às Mães da Praça de Maio. As reuniões eram realizadas na Igreja de Santa Cruz, no bairro de San Cristóbal.

Um dia, quando as freiras e o grupo das mães tentavam arrecadar fundos para publicar um anúncio nos jornais com a lista dos desaparecidos, apareceu Gustavo Nino, um jovem loiro de olhos azuis, que apresentou-se como irmão de um desaparecido. As mães e as freiras encantaram-se com aquele rapaz calado, doce e amável com cara de menino e o aceitaram no grupo.

Mas Niño era o tenente da Marinha Alfredo Astiz, um dos mais cruéis torturadores da ditadura. Semanas depois, entre os dias 8 e 10 de dezembro de 1977, um comando enviado por Astiz sequestrou 12 pessoas do grupo, levando-as para a Escola de Mecânica da Armada, o mais sinistro campo de detenção da Ditadura. Das mais de 5 mil pessoas que ali foram torturadas, menos de 150 sobreviveram.

Entre os dias 17 e 18 de dezembro de 1977, Esther foi dopada, colocada em um avião da Marinha e - junto com outras prisioneiras - jogada viva sobre o Rio da Prata. No dia 20, a maré levou o cadáver da bioquímica feminista até as praias do balneário de Santa Teresita. Os médicos que examinaram o corpo de Esther e suas companheiras verificaram na autópsia que, por causa do tipo de fraturas ósseas, a causa da morte havia sido o "choque contra objetos duros desde grande altura". Todos os corpos foram enterrados como indigentes desconhecidos no cemitério da cidade de General Lavalle.

Em 2005, o juiz federal Horacio Cattani, que investigava casos de desaparecidos da ditadura, descobriu que um dos restos mortais - segundo os exames de DNA - pertencia a Esther. Em 24 de julho, Bergoglio intercedeu para cumprir o desejo dos parentes de Esther, Maria Ponce de Bianco e Azucena Villaflor, de enterrar suas cinzas no jardim da Igreja de Santa Cruz.

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