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A história da Vila Guilherme

O pequeno bairro da zona norte manteve as características rurais durante mais tempo do que seus vizinhos Santana e Vila Maria

O Estado de S. Paulo

09 Novembro 2015 | 16h56

De todos os bairros da zona norte, desde o povoado mais antigo (Santana), é provável que a Vila Guilherme tenha sido aquela que adiou por mais tempo as espasmódicas experiências de desenvolvimento. Essa trajetória diferenciada explica em parte as ruas tranquilas com pegadas de cidade do interior e aonde é possível ouvir o canto dos pássaros. Elas se avizinham dos corredores de tráfego pesado, bastante barulhentos em certos horários e característicos da região colada à Marginal Tietê e a importantes rodovias paulistas, como a Fernão Dias.

História. A Vila Guilherme foi “fundada” no dia 12 de setembro de 1912, quando o comerciante fluminense Guilherme Praun da Silva comprou na região 115 alqueires de uma baronesa chamada Joaquina Ramalho. Os primeiros registros da área, porém, são bem anteriores e muito mais vastos. Tudo começou no século XVI, quando os nativos tiveram de entregar as terras para o bandeirante Salvador Pires. Era o tempo das sesmarias. Nos duzentos anos seguintes, os proprietários foram José Antonio Silva e Manoel Lopes. A baronesa herdou o pedaço de 115 alqueires de seu pai (o barão de Ramalho), no século XIX.

Em 1912, Guilherme Praun da Silva deu início ao loteamento e foi colocando nas ruas do bairro os nomes de seus familiares e amigos. De acordo com o professor e economista José de Almeida Amaral Júnior, co-autor do livro “São Sebastião e a Vila Guilherme - Memórias paulistanas da Zona Norte”, Praun da Silva é considerado um visionário. Ele teria aproveitado os tempos da imigração para convocar a mão de obra portuguesa a contribuir para a consolidação da localidade.

“Percebia naquela gente determinação e honestidade, além de traquejo com atividades rurais, pois muitos vinham de aldeias interioranas na Europa”, escreveu Júnior, por ocasião do aniversário de 112 anos do bairro. “Chácaras a preços reduzidos foram oferecidas. E pequenas atividades agrárias se multiplicaram, juntamente com carvoaria, olaria, criações e produção de leite, as vacarias, entre outras ofertas”, afirmou o professor, um paulistano nascido no Brás, mas cresceu na Vila Guilherme desde os 8 anos de idade.

Desenvolvimento. Durante muitos anos o bairro manteve as características rurais. Naqueles primeiros tempos, porém, foi construída uma ponte de madeira que cruzava o rio Tietê e ampliava a comunicação entre as duas margens, até então feita de barco. A eletricidade começou a chegar no início dos anos 1920, mas sua cobertura era limitada. Aos poucos, vieram também a escola, a delegacia, a farmácia e o trote.

De um modo diferente dos vizinhos Santana e Vila Maria, a Vila Guilherme não seria beneficiada diretamente nem pelo trenzinho da Cantareira e a Ponte Grande nem pelo bonde. Seu crescimento mais substancioso se daria, ainda que devagar e em meio a uma atmosfera predominantemente campestre, a partir dos anos 50, acelerando-se na década de 1970 (aí, sim, viriam os espasmos).

Sobre a região que compreende hoje o que se conhece como Vila Maria e Vila Guilherme, o arquiteto Guilherme Wisnik foi ouvido para um documentário que faz parte do projeto “História dos Bairros de São Paulo”. Em seu depoimentos, ele explica que para o processo de desenvolvimento é definidora a construção das rodovias Dutra e Fernão Dias, nos anos 1950. “A gente tem de lembrar da construção da marginal Tietê nos anos 70 e o metrô que chegou em 75 e o terminal rodoviário Tietê. Um conjunto de ações que definem a transformação radical do bairro e o uso industrial muito forte. Galpões de indústria e transporte pesado de carga, estabelecimentos desse porte em contato direto com habitações precárias. Há alguma urbanidade de cidade do interior, com praças e comércio de rua, somada a esses cortes viários, grandes estradas, a Marginal Tietê... Um bairro bem brasileiro, bem paulista, no sentido do que foi o crescimento de São Paulo.”

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