Acervo/Estadão
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A história da Penha

Bairro da zona leste é um dos mais antigos da cidade e tem sua origem ligada à religiosidade

O Estado de S. Paulo

07 de dezembro de 2015 | 20h11

Como boa parte dos locais mais antigos da cidade, a Penha tem sua origem ligada à religiosidade. O bairro da zona leste foi fundado provavelmente entre 1667 e 1668 nas terras dos padres e irmãos Jacinto e Mateus Nunes Siqueira. Havia em sua fazenda uma igreja de Nossa Senhora da Penha (no lugar em que hoje fica o santuário de Nossa Senhora da Penha de França) e ao redor dela surgiu o povoado. Ainda hoje existe a devoção à padroeira do bairro (e, informalmente, da cidade de São Paulo). Suas festas ocorrem em 8 de setembro.

Nos tempos do império, em 1879, a Penha era uma enorme fazenda pontuada por passagens de boiada. No século XIX, o acontecimento mais importante para o bairro foi a visita de Dom Pedro II e sua mulher, em 1886, três anos antes da proclamação da república. Eles entraram na igreja da Penha sob uma chuva de pétalas de rosa, mas não ficaram para o lanche que um homem rico mandou preparar para recebe-los. Estavam sem fome. 

Na década de 1920, intensificou-se a ocupação da região, sobretudo por parte de grileiros. Depois, veio um tempo de vida pacata, até que no meio do século XX o desenvolvimento converteria a Penha em "bairro-dormitório". 

Em 1968, o repórter Antonio Alberto Prado, do "Serviço Local", fez um perfil do bairro para o Estadão. Um policial de plantão disse a ele, durante a apuração, que a Penha sofria de três "pragas": macumba, maconha e futebol. A maconha, dizia a reportagem, era praga generalizada nos bairros pobres. O futebol, por sua vez, virava praga quando a derrota de um time ofendia a honra do torcedor, dando origem a brigas e garrafadas. E já existia naquela época uma atmosfera espiritual bem misturada. "Debaixo do pontilhão da Central, na Celso Garcia, uma cruz de madeira, preta de tanta fumaça de vela, mostra os sinais da devoção a um padre Antonio, que, segundo os penhenses, foi morto quando rezava. Morto para roubar. Nos pés da cruz, estatuetas de São Jorge, com a espata espetando a goela de um dragão, ao lado de Yemanjá...", descreve o repórter.

Nos primeiros parágrafos do texto “Da velha Penha, só ficou Catarina”, Prado sintetizava o que o povoado já tinha sido e em que havia se tornado até o fim da década de 1960. Começava assim: “Onde está o Querubim das Balas, o homem que carregava um tabuleiro dependurado no pescoço vendendo doces embrulhados em papel “crepon”? Para onde foram os tipos populares? Que fim levou a retreta do domingo, com os músicos uniformizados? E as “guerras santas” entre portugueses e espanhóis, tudo por causa do padroeiro de uma igreja? E as velhas que punham as cadeiras nas portas das casas para mexericar? Mas nem as velhas da velha Penha resistiram ao progresso.Progresso? Depois de 300 anos, ruas esburacadas, falta de telefones, de água e de uma porção de outras coisas significa progresso? O Querubim morreu, a retreta acabou (lá não tem nem jardim) e a Penha hoje é apenas um grande bairro-dormitório, com uma massa de gente que vai e volta para os escritórios da cidade. Da velha Penha, só resta a dona Catarina que há quase dez anos não sai de casa, num protesto mudo. (...)” (Leia o restante da reportagem neste link). 

Em tempo: Catarina era uma antiga moradora que cresceu no bairro e se chamava Catarina de Albuquerque. Ela morou na primeira casa de tijolos da Penha e testemunhou seu crescimento, além de momentos marcantes, como a visita de D. Pedro, em quem jogou pétalas e de quem comeu um lanche rejeitado. Também protagonizou uma triste história de amor nos anos 1920. Hoje, é nome de rua.

A origem mística. Acredita-se que a Penha tenha começado com um oratório no alto da colina, entre 1620 e 1650. Há uma versão mística dando conta de um viajante francês que teria deixado no local a imagem da Virgem Maria. Antes, ele tentou por duas vezes tirá-la de lá, mas ela sempre voltava ao mesmo ponto, onde a igreja acabou sendo erguida. 

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