SIDNEY CORRALLO/ESTADÃO
SIDNEY CORRALLO/ESTADÃO

A história da Mooca, dos índios aos "mooquences"

A trajetória do bairro desde que os jesuítas surpreenderam os indígenas com a ponte sobre o Tamanduateí

O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2015 | 17h03

Tudo começou no século XVI, quando em 1556 os padres foram os primeiros a chegar (depois dos índios, é claro) e ergueram uma ponte sobre o rio Tamanduateí (Tometeri). Com o nome inicial de Arraial de Nicolau Barreto, a Mooca seguiu rural e na função de passagem de bandeirantes e jesuítas para o litoral até que, nos anos de maior imigração, a paisagem começou a mudar e a dinâmica da região também.

No fim do século XIX e começo do XX, de 1870 a 1890, mais ou menos, houve toda aquela dinâmica do café que levou à ferrovia, à chegada dos estrangeiros e à industrialização. Já nos primeiros anos de 1900, a Mooca formava, junto com o Brás, o Bom Retiro e o Bexiga, um grupo de bairros industriais e onde os funcionários das fábricas fixavam residência. Eram locais habitados sobretudo pelos imigrantes operários, porque os industriais preferiam morar na Paulista (mas instalavam as fábricas perto das estradas de ferro). 

No período de ouro da industrialização em São Paulo, o italiano Rodolfo Crespi (1874-1939) implantou seu cotonifício no quarteirão formado pelas ruas dos Trilhos, Taquari, Visconde de Laguna e Javari. Isso foi em 1897. A Cervejaria Bavária (1892), do alemão Henrique Stupakoff, e a Companhia Antarctica Paulista (1920, quando comprou a Bavária), engrossavam a lista de indústrias sediadas da região. 

Naquele tempo, a Mooca era a região mais populosa da cidade e a que concentrava mais imigrantes, sobretudo italianos. Hoje, a população é formada principalmente por 'mooquences', paulistanos nascidos no bairro e que são em sua maioria descendentes de imigrantes e migrantes que contribuíram para sua história. Aquele pessoal que fala assim, meio italianano: "Bello, me vê um chopps e dois pastel!"

"O Brás e seu apenso, a Mooca, serão a expressão mais acabada do bairro operário/bairro imigrante. Antes da era industrial, constituíam-se numa região de cunho rural, isolada do centro da cidade pela várzea do Carmo. Por ali se espalhavam chácaras (...) produtoras de frutas e hortaliças aos cuidados de um chacareiro", escreve Roberto Pompeu de Toledo em "A Capital da Vertigem", livro que reconstrói a história da cidade de 1900 a 1954. 

Junto com seus "primos" de DNA ferroviário e operário, como o Brás e o Bom Retiro, a Mooca também concentraria as principais manifestações de trabalhadores por melhores condições nas fábricas. Sobre o ano em que ocorreu a primeira greve-geral, por exemplo, Pompeu de Toledo conta em seu livro que o viajante francês Paul Walle registrou que "numa fábrica da Mooca, em 1917, meninos de doze e treze anos trabalhavam no período noturno e queixavam-se de que eram frequentemente espancados."

Além dos trilhos, das indústrias e da imigração, outro fator importante na construção da história da Mooca e seu destaque no mapa da cidade é que quando foi instalado o Clube Paulista de Corrida de Cavalo, embrião do Jockey Club de São Paulo, o bairro se converteu em um centro de lazer. Veja algumas datas que marcaram sua cronologia.

1. 1556

Os jesuítas constroem a ponte sobre o Rio Tamanduateí e se instalam no lugar ocupado até então pelos índios. Por muitos anos, a região seria de atividade rural.

2. 1870-1890

São os anos da grande imigração, chegam a ferrovia, os imigrantes e o bairro começa a ser ocupado. A Hospedaria do Brás, atual Memorial do Imigrante, começa a funcionar em 1883. Ali antes era Brás. Hoje, Mooca. Chegam as primeiras fábricas.

3. 1876

É fundado, pelo fazendeiro Rafael Aguiar Pais de Barros, no Hipódromo, o Clube Paulista de Corrida de Cavalo. Seria o embrião do Jockey Club. Os cavalos vinham da Europa e eram criados por Pais de Barros em sua fazendo na parte alta da Mooca. O lugar promoveu o nascimento do turfe no Brasil e virou uma referência de lazer para a oligarquia cafeeira da época.

 

4. 1877

Principalmente por causa do burburinho causado pelo Clube, que trazia a elite para se divertir em um bairro até então periférico, foi instalada uma linha de bonde de tração animal, que depois seria transformada em linha férrea. Fazia o trajeto Centro-Mooca. 

 

5. 1914

É inaugurada a Paróquia de San Gennaro, que até hoje promove a festa em homenagem ao santo, cheia de comidas típicas italianas. Muita polenta e macarronada. 

6. 1918

A Mooca, bem como toda a cidade, viveu em 1918 um de seus piores anos. A geada do inverno foi um dos quatro "Gs" que assolaram os brasileiros (geada, guerra na Europa, gafanhotos nas fazendas e gripe espanhola. "O maior dos hospitais improvisados, com mil leitos, foi instalado nos espaços generosos da Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca, com o propósito de atender aos mais necessitados. O Hospital de Isolamento [...], que resistiu enquanto pôde a aceitar doentes da gripe, em troca encarregou-se de fornecer funcionários e equipamentos à Hospedaria."

7. 1925

Em abril, os funcionários do Cotonifício Crespi fundam o Clube Atlético Juventus, na rua Javari. Em julho, o prédio da fábrica é bombardeado, durante a revolução de 1924.

8. 1928

Em 1928, Posto Zootécnico de São Paulo e Recinto de Exposições de animais, que funcionava na Mooca desde 1905, foi transferido para a Água Branca. Nascia ali o Parque da Água Branca.

9. 1952

Inaugurado o Teatro Arthur Azevedo.

10. 1958

A Paróquia São Pedro Apóstolo, que era capela nos anos 40, foi inaugurada em 1958.

11. 1980

A Avenida Paes de Barros foi a primeira a ter faixa exclusiva de ônibus em São Paulo.

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