A herança do Cabrião

IMPRENSA

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Corria o ano de 1866 e a pacata São Paulo tinha apenas 50 mil habitantes. Mas já se parecia em muitas coisas à vasta metrópole que hoje se estende além do Caaguassu, das várzeas do Carmo, do Pinheiros e do Tietê. As peripécias da política, as negociatas e até as águas oitocentistas, caídas do céu em abundância e espalhadas nos baixios sem barreiras ou asfalto, já perturbavam os paulistanos.

"Vamos ter mais agua em S. Paulo, do que tiveram os Israelitas manã no deserto. O mez aquoso aproxima-se, e a caixa váe receber porção d"agua sufficiente, para innundar a Capital, se tanto fôr preciso. Viva a fartura!", ironizava o jornal O Cabrião, na edição de 28 de outubro daquele ano, aqui lembrado com as regras idiomáticas da época.

O Cabrião não dava trégua aos poderosos. Era um jornal semanal, que retratava o cotidiano de São Paulo com irreverência - e olhe que os tempos eram bem mais bicudos para gente que cultivava o hábito de ter opinião própria. Vivia-se na escravatura, na Vila Imperial, sem o voto feminino, sem a relevância econômica e política da metrópole atual e com os negócios de Estado e Igreja andando juntos.

Mas O Cabrião descia a marreta, sem dó, nem piedade. Valia tudo: de político malfalado a comerciantes poderosos, sobrando farpas para comportamentos do clero, da polícia e das famílias. À pena irônica de Ângelo Agostini (acima, reprodução que mostra ameaça à liberdade de imprensa), nada escapava. Um belo livro, produto da venerável dedicação de Délio Freire dos Santos, publicado pela Unesp (2000), conta a história do periódico, feito por Agostini em parceria de Américo de Campos e Antônio Manoel dos Reis. O livro reproduz caricaturas, pioneiras "tiras" e histórias em quadrinhos, registros daquele modo de vida.

O Cabrião era uma publicação inspirada em personagem do escritor francês Eugène Sue, autor do romance de folhetim Os Mistérios de Paris. Atacado e processado pelo governo que criticava e pelo clero que fustigava, O Cabrião foi fechado em setembro de 1867, em uma crise de finanças.

A leitura do Cabrião é diversão na certa. Foi dos mais importantes de sua época, logo depois de O Farol Paulistano inaugurar, em 1827, a era do jornal impresso. Antes disso, O Paulista, de 1823, era - pasmem! - escrito à mão.

O Cabrião morreu. Mas semeou uma verve que não pode ser aniquilada.

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