A guerra de São Paulo pela democracia

Em 9 de julho de 1932, paulistas se ergueram contra a ditadura. Perderam a batalha, mas mudaram a História

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

Derrota militar, vitória política. Os paulistas que se levantaram contra a ditadura de Getúlio Vargas foram vencidos nos campos de batalha, mas a Revolução Constitucionalista de 1932, que custou cerca de mil mortos dos dois lados, depois de 87 dias de combates, impôs suas ideias e plantou sementes para a conquista de seu principal objetivo, a democratização do País.

"Entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 1932", declarou o presidente da República, em agosto de 1933, ao nomear interventor do Estado o engenheiro Armando de Salles Oliveira, um dos líderes civis da conspiração que levantou São Paulo em defesa de uma nova Constituição.

O conflito se iniciou no dia 9 de julho, quando o coronel Euclides Figueiredo assumiu o comando das operações do movimento, sob as ordens do general Isidoro Dias Lopes, um dos chefes da Revolução de 1924, na revolta dos paulistas contra o presidente Artur Bernardes.

"Está vitorioso, em todo o Estado, o movimento revolucionário de caráter constitucionalista", anunciou a manchete de O Estado de S. Paulo, na manhã do dia 10, domingo, iniciando a extensa e entusiasta cobertura que faria até 29 de setembro, quando os exércitos combatentes assinaram um armistício.

"Por que homens sérios como os líderes da Revolução embarcaram nessa luta,tendo certeza de que não poderiam vencer?", pergunta escritor e historiador Hernâni Donato, autor de A Revolução de 32, lembrando o empenho de revolucionários como Julio de Mesquita Filho que insistiram na guerra, acreditando ainda numa vitória, quando os chefes militares optaram pela rendição.

O coronel Euclides Figueiredo também achava que havia possibilidade de obter, senão a vitória, ao menos resultados satisfatórios pela causa. Responsabilizado pela derrota, pelo fato de não ter avançado logo com as tropas para o Rio, o coronel culpou os políticos. Ele não foi adiante, conforme alegou, porque recebeu ordem de aguardar o general Bertholdo Klinger, que viria de Mato Grosso com 6 mil homens. O general desembarcou em São Paulo com meia dúzia de oficiais.

Estudioso do movimento, o advogado Antônio Penteado Mendonça, neto de Antônio Mendonça e sobrinho-neto dos Mesquita, conspiradores e combatentes de 1932, interpreta a decisão radical dos civis como uma imposição das circunstâncias políticas. "Eles não tinham como vencer, mas também não tiveram como não embarcar na Revolução, um acidente de percurso na história de São Paulo", disse Mendonça, depois de lembrar como Getúlio Vargas tentou esvaziar politicamente o Estado e como tratou de desarmar o aliado que, em 1930, apoiou sua ascensão ao poder.

Na avaliação do jornalista Antônio Carlos Pereira, autor de Folha Dobrada, história da Revolução publicada pelo Estado em 1982, os paulistas acreditaram na vitória pelo menos até a segunda quinzena de julho, quando ainda se esperava que o coronel Figueiredo avançasse para o Rio, onde teria a adesão de unidades do Exército.

"Boa parte dos líderes acreditou até quase o final", afirma o historiador José Alfredo Vidigal Pontes, autor do livro 1932, o Brasil se Revolta (Editora Terceiro Nome, 2004), atribuindo a confiança na vitória, sobretudo entre os soldados, à propaganda constitucionalista de jornais e rádios. A esperança de derrotar as tropas governistas, apesar de evidente desproporção de forças, era tão grande que, até o fim, não deixaram de se apresentar voluntários para a luta. Segundo Donato, entre 48 mil e 55 mil homens se inscreveram nos postos de alistamento para combater ao lado de batalhões da Força Pública (atual Polícia Militar) e de contingentes do Exército.

Voluntários. A mobilização foi geral. Formavam-se batalhões nas cidades do interior, onde milhares de inscritos se aglomeravam nas estações à espera de condução para a capital. Muita disposição, mas faltavam treinamento, armas e munições. Não havia fuzis para todos, ou eram fuzis velhos e descalibrados. Em 15 de junho, quando os primeiros tiros foram disparados na região do Túnel, divisa de São Paulo com Minas, os paulistas contavam com 20 mil voluntários, 13 mil soldados da Força Pública e 3.612 homens do Exército. Até o fim do conflito, teriam sido alistados 60 mil voluntários - ou 200 mil, segundo alguns historiadores -, mas nunca mais de 40 mil tiveram condições de lutar.

Além do desequilíbrio de forças, São Paulo enfrentou a contrapropaganda do governo que considerou separatista o movimento pela constitucionalização do País, uma aspiração nacional. A ditadura de Vargas divulgou também que, sob a direção do italiano "presidente Matarazzo", os paulistas iam expulsar os nordestinos de seu território. Essa invenção levou Ceará, Paraíba e Bahia a recrutar voluntários para combater os constitucionalistas. Não foi fácil desfazer a mentira, porque de fato havia um pequeno grupo radical do Partido Republicano Paulista (PRP) que defendia o separatismo.

Cercado pelas forças federais e impedido de comprar armamento no exterior, São Paulo inovou. Engenheiros da Escola Politécnica fabricaram balas, obuseus e - seu maior feito - trens blindados. Na retaguarda, mulheres ocupavam na indústria as vagas deixadas pelos homens que estavam nas trincheiras e confeccionavam, em casa ou em oficinas de costura, milhares de fardas, ataduras e perneiras para os soldados. Os jornais publicavam apelos para a doação de binóculos e arrecadação de ouro para a guerra.

"As centenas de milhares de brasileiros envolvidos na luta confrontaram-se em 64 combates principais e em outros tantos de menor envergadura", escreve Donato. O Governo Provisório, que tinha 24 aviões militares para enfrentar a aviação constitucionalista, de apenas sete aparelhos civis mal adaptados, chegou a mobilizar 350 mil homens e 250 canhões. Em 22 de agosto, no céu de Cruzeiro, foco do conflito no Vale do Paraíba, ocorreu o primeiro combate aéreo do País, entre dois aviões paulistas e dois federais. "As infantarias suspenderam o combate para acompanhar o espetáculo", registra Donato.

A força aérea governista bombardeou Campinas e outras cidades do interior e do litoral. Num hotel do Guarujá, Santos Dumont teria assistido a um bombardeio de Cubatão e por isso se teria enforcado, desgostoso com o emprego militar de seu invento. Em 14 de julho, o Estado publicou uma mensagem de Santos Dumont que apoiava os constitucionalistas e fazia um apelo à união nacional. São Paulo lutava sozinho, apesar de ter recebido manifestações de solidariedade de simpatizantes de sua causa no Rio Grande do Sul, em Minas, em Mato Grosso e na Amazônia, com movimentação militar. Houve ainda protestos de estudantes contra o governo em Salvador, Belo Horizonte e Rio. A esperada adesão de gaúchos e mineiros não se concretizou.

Após a rendição paulista, os principais líderes da Revolução de 1932, civis e militares, foram presos e exilados. Entre eles, os irmãos Julio e Francisco Mesquita, Antônio Mendonça, Guilherme de Almeida, Paulo Duarte, general Bertholdo Klinger, general Isidoro Dias Lopes e coronel Euclides Figueiredo. Retornaram um ano depois, quando Getúlio decretou a anistia. A convite do novo interventor, depois eleito governador, Armando de Salles Oliveira, seu cunhado, Julio de Mesquita Filho coordenou em 1934 a criação da Universidade de São Paulo (USP), antigo sonho seu e de outros revolucionários.

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