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Fernando Reinach
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A grande aventura da humanidade

Eu cresci acreditando que passear na Lua havia sido a maior aventura da humanidade. Mas descobri que nossos ancestrais estiveram envolvidos em uma aventura ainda maior, colonizar as ilhas do Pacífico. Aos poucos estamos apreciando o desafio tecnológico desta aventura cercada por mistério. Mas, agora, estudando o genoma das galinhas, os cientistas estão começando a entender o que realmente aconteceu.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

29 Março 2014 | 02h08

Nós somos animais terrestres. Surgimos na África e ao longo de centenas de milhares de anos nos espalhamos pelo Oriente Médio, de lá para a Europa e Ásia. Tudo por terra, caminhando. Para chegar à América atravessamos o estreito de Bering e de lá, ainda caminhando, chegamos à América do Sul. Tudo sem atravessar um oceano. A grande aventura ainda não tinha começado.

Por volta de 33 mil anos atrás, tomamos coragem para navegar por distâncias maiores. Pulando de ilha em ilha, saímos do que é hoje a Malásia e o Vietnã e chegamos à ilha de Nova Guiné. Foram quase 30 mil anos conquistando ilhas separadas por centenas de quilômetros. Por volta de 3.200 anos atrás, estávamos no Arquipélago de Bismark. A parte oeste da Polinésia estava colonizada. Foi aí que começou a grande aventura, a colonização da parte leste da Polinésia.

Na parte leste da Polinésia as distâncias entre arquipélagos são medidas em milhares de quilômetros. É uma região triangular, do tamanho do Brasil. No norte o Havaí, no sul a Nova Zelândia e no leste a Ilha de Páscoa. Os lados deste triângulo têm 10 mil quilômetros de comprimento. No centro, a Polinésia Francesa, um conjunto de ilhas que inclui o Taiti, o arquipélago mais próximo da ilha de Samoa, onde nossos antepassados chegaram mil anos antes do nascimento de Cristo e de onde partiram para conquistar o leste da Polinésia.

De Samoa à Polinésia Francesa são 2.400 quilômetros de mar aberto, na época uma distância mais difícil de cruzar do que a que separa a Terra da Lua. Não é à toa que demoramos quase 1.800 anos para cruzar esta distância. Foi provavelmente o tempo necessário para desenvolvermos a tecnologia da navegação de longa distância. Enquanto no Ocidente os Romanos se espalhavam pela Europa, eram derrotados e a Idade Média começava, em Samoa a tecnologia de navegação estava sendo desenvolvida.

Finalmente, por volta de 1.200 anos atrás (ano 800 em nosso calendário) iniciamos a grande aventura, conquistar a Polinésia do Leste. Foi rápido, em 300 anos chegaram à Polinésia Francesa atravessando os 2.400 quilômetros, chegaram às ilhas Marquesas (mais alguns milhares de quilômetros) e ao Havaí, milhares de quilômetros ao norte. E, por volta do ano 1.000, finalmente conseguimos chegar à Ilha de Páscoa.

O homem, que só caminha, havia conquistado praticamente as ilhas mais remotas do planeta. Mas, como essa aventura foi vivida? Que barcos eram usados, qual o tamanho das expedições? Em que sequencia as ilhas foram conquistadas? Sem registros históricos é difícil saber, mas por sorte há as galinhas.

As galinhas não voam, não nadam e tampouco existiam na Polinésia antes da chegada do homem. Mas em cada ilha conquistada existem galinhas. Os cientistas acreditam que elas foram levadas por nós, muito provavelmente nos barcos originais. Como as populações de galinhas de cada uma das ilhas ficaram isoladas durante séculos, elas se diferenciaram durante esse tempo. Portanto, se for possível determinar a relação genética entre as galinhas ancestrais que viviam em cada ilha, será possível determinar a ordem de colonização das ilhas e o tempo que separa cada viagem.

*É biólogo

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