A graça do bom e do mau humor

Como tudo o mais na vida, o senso de humor não está equitativamente distribuído entre os viventes. Ilustrações? Aqui vão duas, ilustríssimas.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2012 | 03h05

1.

Numa curva da conversa, Isabel Allende envereda pelo tema do feminismo, e se põe a falar com veemência desproporcional ao físico de quem mede um metro e meio. Entre cílios pesados de tanto delineador e rímel, seus olhos brilham, e os braços se esgalham numa gesticulação enfática. Não há como não concordar com o que ela diz - e não é, por um segundo que seja, aquela arenga catequética dos militantes em geral, com a qual você pode até estar de acordo, mas precisava ser chato assim para defender uma boa causa? Não, o que a Isabel diz é não só interessante como muito divertido.

O alvo, claro, são os machos, em geral predadores. Todas as religiões tradicionais, por exemplo, são a seu ver orientadas e controladas por homens, e tocadas de um jeito que beneficia os marmanjos e controla as mulheres - sexualidade, fertilidade, poder, liberdade, corpos. Inveja do pênis? Isabel ri da provocação - e repete o que disse ante engravatada plateia ao receber do presidente chileno Patricio Alwyn o Prêmio Gabriela Mistral: "Quem pode invejar esse pequeno e caprichoso apêndice? Francamente, se eu tivesse um, não saberia onde colocá-lo..."

Isabel Allende não tem dúvida de que o grande problema da humanidade é a violência - e, sacando obscuras porém verossímeis pesquisas, afirma que 97% dos crimes violentos são cometidos por homens. Tudo culpa da testosterona, hormônio tão daninho que deveria ser eliminado do corpo assim que o menino chega à puberdade. Mas peraí, a testosterona, exatamente, não é responsável por boa parte do prazer sexual que as mulheres buscam? A autora de Afrodite não vacila: bem, de vez em quando a gente poderia dar um sachezinho ou umas gotas para vocês botarem no café...

2.

Com José Saramago, a conversa era outra. Volta e meia o escritor português se punha sentencioso, e antes mesmo de ganhar o Nobel (estávamos a uns meses disso, em 1998) me sugeria um desses homens engomados que, de perfil, adornam moedas e medalhas. Definitivamente, nossos sensos de humor não batiam - a não ser numas raras ocasiões, como aquela em que me contou: na aldeia onde nasceu havia uma família "Caralhana" e outra "Curroto" - "felizmente", sorriu, "não calhou-me nenhuma dessas...". Ou quando falou do avô João: zelador de uma propriedade rural, ele dormia numa cabana, e para não ter que ir lá fora urinar, enfiava num longo canudo de madeira aquele penduricalho que nenhuma inveja faz a Isabel Allende.

No mais, porém, nossos risos nunca estavam sincronizados. Agora, por exemplo, ele me falava de um livro que vinha escrevendo, no qual pretendia contar sua vida até o começo da adolescência, e que iria se chamar O Livro das Tentações, título depois mudado para As pequenas memórias. Como logo antes o assunto tinha sido seu primeiro romance, Terra do pecado, indaguei, como quem pensa alto: não é curioso o sujeito começar pelo pecado e meio século depois chegar à tentação? Eu mesmo me diverti com a pergunta, mas Saramago fechou a cara, irritado com a estultícia que acabara de ouvir: "Não", se pôs a explicar, "são outras tentações, não as da carne!" - e por aí foi, num papo didático que era bem o contrário de qualquer boa tentação.

Depois, gravador desligado, fizemos pausa para o café, e Saramago, na sala, me apresentou seus três cães: a yorkshire Greta, o poodle Pepe e o cão d'água português (espécie de poodle) Camões. Como o dono, este era um devorador de livros, só que em sentido literal: ultimamente, andava a roer um álbum com reproduções de Goya. Antes de se aplicar à pintura espanhola, dera cabo de duas biografias de Nelson Mandela. A insistência gastronômica de Camões no líder sul-africano me divertiu - mas nem um pouco ao romancista, a julgar pelo piparote com que pôs para correr aquele voraz e irreverente degustador das letras & artes.

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