'A gente se culpa por não salvar mais pessoas'

Do lado de fora da boate, outros voluntários faziam os primeiros socorros e levavam quem precisava para os hospitais

O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h01

Depois de serem retiradas da boate por voluntários, as vítimas receberam atendimento de outras pessoas solidárias. Eles faziam os primeiros socorros e levavam quem precisava para os hospitais. Para isso, o estudante de Enfermagem Fabrício de Lima Bueno, de 25 anos, e o atendente de Farmácia Carlos Valau, de 36, estavam preparados. Ambos são socorristas voluntários, daqueles que compram macacão, capacete e luvas com o próprio dinheiro. Ambos ficaram estarrecidos com o que viram e até agora têm dificuldade para dormir. "Em uma situação dessas, a gente se culpa por não salvar mais pessoas", diz Bueno.

Bueno chegou à Kiss por volta das 3h30 e passou a fazer a avaliação inicial das vítimas para saber se estavam conscientes e precisavam de respiradores artificiais. Depois, encaminhava os veículos aos hospitais mais equipados para cada caso. Ao amanhecer, depois de descansar por uma hora e meia, foi para o ginásio para onde estavam sendo levados os corpos. Viu chegarem os caminhões cheios de cadáveres. "Era uma cena do Holocausto."

Bueno e Valau, que também trabalhou durante a noite toda, levaram os corpos para dentro do ginásio. Valau conta que ainda o perturba a lembrança dos toques dos celulares que estavam nos bolsos das roupas das vítimas - eram parentes ligando na esperança de que atendessem.

Ao saber do incêndio, a estudante de Psicologia Paola Xisto, de 30 anos, pegou seu carro e foi para o local. Levou oito feridos da boate para hospitais. "Se eu não tivesse feito, me sentiria culpada pelo resto da vida." O motorista de táxi João Ribeiro, de 57 anos, transportou sete pessoas. Ao amanhecer, quando chegou em casa, começou a entender o que havia passado e chorou.

A presidente da Associação Brasileira de Psicologia das Emergências e Desastres Rosana Dório Bohrer, de 53 anos, prestou assistência a famílias, feridos e voluntários. Ela explica que muitos heróis daquela madrugada não buscavam o reconhecimento, mas cumpriam os laços com amigos. "Eles não querem ser heróis. Eles têm um vínculo de proteção e amparo." / E.O.

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