A gente se acostuma

A meu lado no sofá, vendo a polícia tomar o morro, o gringo diz que nunca vai se acostumar com o apelido, caveirão, que os brasileiros botaram naquele blindado. Vai sim, digo eu, e me ponho a enumerar absurdos que a gente acaba assimilando como coisa normal.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2010 | 00h00

Invoco o exemplo da poeta Elizabeth Bishop, americana que nem ele, que em 20 anos de trópico terminou por se habituar a brasileirices no começo inaceitáveis. Já não estranhava a sem-cerimônia com que desfazemos um compromisso assumido, nem o verbo que usamos para apagá-lo da agenda: desmarcar. Conformou-se até com a propensão que têm nossos pedreiros e pintores para sumir por vários dias, senão para sempre, quando a obra vai pelo meio. Parou de reparar na excitação que a seu ver se apossa dos brasileiros quando há alguém doente, cada qual com sua receita infalível e a certeza pétrea de que o problema é o fígado - a víscera nacional por excelência, achava Elizabeth. Depois de muito se boquiabrir, a escritora já não se pasmava ante a frequência com que expoentes das letras nacionais, Manuel Bandeira entre eles, se deixavam fotografar refestelados em redes. Aquele preguiçoso bem-bom, desconfiou ela, talvez fosse boa ilustração do estágio em que se encontrava a literatura brasileira.

Até a isso a gente se acostuma - e não venha me dizer que com você é diferente. Pense naquelas coisas, um velho interruptor, por exemplo, que ainda não pifaram totalmente, mas que demandam certa manha para seguir funcionando. Bastaria chamar um técnico, mas vai ficando, a improvisação ganha status de definitivo. Feito o rádio do velho Germano, personagem do romance O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, que só funciona em cima do vaso sanitário.

Já que a conversa nos trouxe a esse cômodo da casa: meu amigo Paulo Leite tem seis lâmpadas no teto do banheiro, e faz tempo que cinco estão queimadas, o que no chuveiro o obriga a se posicionar assim meio de lado, num cantinho, sob o único foco de luz hoje operante. Se também esse entregar os pontos, o banho noturno do conhecido fotógrafo passará a ser tomado em Braille. Ainda nesse departamento: conheço um escritor cujas melhores ideias costumam gotejar, eventualmente jorrar, quando ele está sob o chuveiro, com o risco de que escapem pelo ralo; de tal forma o escriba condicionou a torneira da inspiração que o prosseguimento de sua obra literária depende hoje da Sabesp.

O certo é que sempre se dá um jeito. Na minha família, com o pendor para a caricatura que lhe é próprio, se conta o caso de um tio-avô que para chegar em casa praticamente dava volta ao mundo, pois, segundo explicava, o volante de seu Fusca girava mal para um dos lados. Na redação da Veja de outros tempos, havia uma gigantesca máquina de café, a simpática Faema, que durante meses funcionou quando e como queria; temperamental, produzia combinações com muita água e nenhum pó, ou líquido nenhum e muito açúcar, isso quando não providenciava água, pó, açúcar e espátula - tudo, menos o copinho. Um bom tapa no lombo da máquina, descobriu o repórter Décio Bar, bastava para chamá-la à ordem, a isso se resumindo a assistência técnica. Nas madrugadas daquela clínica de envelhecimento precoce, nós nos adaptamos aos achaques da Faema - com a mesma tranquilidade, aliás, com que outro colega, editor graduado & avoado cujo nome convém silenciar, se adaptou à sua máquina de escrever, sem se dar conta (é o que murmuravam seus comandados) do sumiço, já fazia semanas, da tecla A.

Mas não é apenas à precariedade de objetos e utensílios que nos acostumamos. Pense nas gambiarras conjugais que nos permitem seguir acasalados, a passo firme ou claudicante, rumo à comemoração das bodas de todos os metais e gemas preciosas. Nesse como em outros campos, há sempre alguma possibilidade de arranjo. Quer apostar que o gringo lá do começo vai admitir que o blindado de invadir favela tem mesmo cara de caveirão? E quem sabe você se acostuma a encontrar aqui, todo domingo, um cronista que agora acaba de desembarcar?

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