A gênese do Pátio do Colégio

Arquiteto paulistano mostra como era a igrejinha dos jesuítas que fundaram SP

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

A história é cheia de invenções. Assim acontece - perdão beato José de Anchieta, se isso blasfêmia for! - com o Pátio do Colégio, marco histórico do centro de São Paulo onde a metrópole nasceu, após missa celebrada por sacerdotes jesuítas em 25 de janeiro de 1554. Isso porque, talvez os mais jovens não saibam, a construção que está ali atualmente não passa de uma réplica.

"É completamente fantasiosa, com estrutura de concreto armado e os interiores muito diferentes do original", provoca o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). "Por outro lado, São Paulo é uma das poucas cidades no mundo que conhecem, com exatidão, local e data de sua fundação."

Estudioso atento e autor de uma dezena de livros sobre a história urbanística e arquitetônica paulistana, Toledo debruçou-se em sua prancheta para, lápis sobre papel canson, recriar meticulosamente as feições antigas da igrejinha do Pátio do Colégio.

"Essa memória estava desaparecida", justifica-se. "Então tive a ideia de recompô-la." Para tanto, consultou pinturas detalhistas, precárias fotografias antigas e um sem-número de textos históricos - como os de Affonso d"Escragnolle Taunay (1876- 1958), cujos trechos estão reproduzidos nesta página.

Diferentes igrejas. A construção atual, iniciada com as comemorações do IV Centenário, em 1954, e inaugurada 25 anos depois, é a quarta versão da igreja jesuíta. Da primeira capela, poucos registros ficaram. "Tratava-se de algo muito rudimentar, talvez de sapé", afirma o arquiteto. "Era chamada de "casa dos meninos" ou "feliz cabanazinha" e media 4,48 m por 8,20 m", completa o escritor Hernâni Donato, que em 2008 lançou o livro Pateo do Collegio: Coração de São Paulo.

Ficou pronta em 1557 a segunda construção, já de taipa. "Mandamos fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor dos nossos rostos e o auxílio dos índios", escreveu, à época, padre Anchieta.

A terceira, cujas obras iniciaram em 1667, levou 16 anos para ser concluída - já com torre, erigida de pedra. Robusta, durou 229 anos, e foi reformada no século 18. Com base nos registros que pinçou, Toledo recriou as fachadas tais e quais eram em 1671 - durante as obras, portanto -, 1683 e 1745. Também reconstituiu o interior dessa igreja.

Em 1760, os 22 jesuítas locais foram expulsos, mandados para Portugal - uma medida do Império deixou de reconhecer a ordem religiosa. "Levaram consigo boa parte do arquivo paulistano, que acabou queimado numa praça de Lisboa", conta Donato. As construções do Pátio do Colégio passaram a ser utilizadas como Palácio de Governo. Na noite de 13 para 14 de março de 1896, boa parte da construção desabou durante um temporal.

O trabalho de Toledo mostra faces esquecidas de uma igreja tão simbólica para São Paulo. Olhar para o Pátio do Colégio, hoje - mesmo com a consciência de que se trata de uma réplica -, é mergulhar em um passado que já beira os 500 anos. Um ano após a fundação, aquela região do Planalto de Piratininga era uma aldeola jesuíta que reunia 82 habitantes. Hoje, cerca de 1 milhão de pessoas passam, diariamente, pelos arredores do Pátio. Muitos nem olham para ele.

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