A gênese do bloco

Sábado de carnaval, há dez anos. Seu Vienez estava em casa com os amigos em São Pedro da Aldeia, pequena cidade litorânea, vizinha de Cabo Frio e Araruama, a 141 quilômetros do Rio, quando os convidados resolveram fazer uma batucada. Como não havia instrumentos, cada um pegou uma panela e saiu batendo. No ano seguinte, a mesma turma voltou a abrir os armários da cozinha, mas, em vez de fazer o barulhinho dentro de casa, foi até a praia, distante dois quarteirões, já castigando os utensílios domésticos.

FERNANDO PAULINO NETO, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2012 | 03h00

No terceiro ano, com a reclamação das "patroas", o pessoal resolveu comprar alguns instrumentos de percussão. Tamborim, surdo, chocalho. E voltou a fazer o mesmo percurso de duas quadras, da casa de seu Vienez até a praia. Na volta, perceberam que tinham criado um bloco de carnaval. E se deram conta da necessidade de batizar a agremiação.

Por votação dos fundadores, resolveu-se que o nome homenagearia um dos coirmãos do carnaval carioca. Ganhou um tradicional bloco do bairro de Laranjeiras. E assim, no quarto ano de encontros, desfilou pela primeira vez o "Chupa mas não baba" de São Pedro da Aldeia - autointitulado "um bloco familiar" - cantando e tocando antigas marchinhas de carnaval.

O bloco cresceu, passou a ter diretoria e, mais recentemente, feijoada. Os baluartes do bloco decidiram então que era hora de passar a ter um enredo e um samba próprio. Para inaugurar esta nova fase, saíram no sábado de carnaval com o tema De Santana do Matos ao Engenho da Rainha - José Vienez Trindade um exemplo de vida a ser seguido. Conta a saga de seu fundador, vindo do Rio Grande do Norte para o Rio, onde conheceu, no bairro do Jardim América, "uma pequena notável" por quem se apaixonou.

O que une o modesto grupo familiar de São Pedro da Aldeia à festa monumental em que se transformou o carnaval de rua do Rio com seus superblocos de rua S/A (com pedido de licença poética a Beto sem Braço e Aloizio Machado), levando centenas de milhares - e até milhões, como no Cordão da Bola Preta, no centro do Rio - é a gênese. Seja que ritmo tenham (marchinhas, samba-enredo, sambas de terreiro ou os que homenageiam o brega, o sertanejo, Beatles ou Raul Seixas), os blocos do Rio nasceram com a mesma espontaneidade, com exceção dos recentes "blocos comerciais".

Um grupo de amigos em um bar tendo a ideia mirabolante. Os que efetivamente desfilam são os que sobreviveram à preguiça da ressaca.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.