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A Freguesia do Ó e o cinturão caipira paulistano

Permanecendo isolado durante séculos, primeiro pelas curvas do rio, depois pelas porteiras das ferrovias, o povoado conservou o jeitão interiorano

O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2015 | 16h40

Situada na margem direita do Tietê, a Freguesia do Ó surgiu perto das colinas da Serra da Cantareira ainda no período colonial e a partir de um ponto de passagem e descanso das tropas que entravam na cidade ou saíam dela com destino ao interior, no caso dos bandeirantes, por exemplo.

Essa passagem ficava dentro da sesmaria de um bandeirante chamado Manoel Preto e a ele é atribuída uma espécie de “fundação” desse que é um dos bairros mais antigos de São Paulo (veja mais curiosidades históricas sobre o bairro). Tal fundação teria ocorrido em 29 de agosto de 1580. O que se sabe ao certo é que o povoado cresceu ao redor da sede da fazenda de Preto e da igrejinha que ele mandou construir por ali, sobretudo porque, para quem trabalhava com ele e tinha devoção, era mais prático ir à missa na vizinhança do que se dirigir ao centro da cidade.

De perfil caipira do modo de vida e no sotaque de sua gente, a Freguesia do Ó foi crescendo aos poucos, isolada, e com vocação agrícola.

      1.A freguesia

Por volta de 1580, Manoel Preto, famoso, violento e poderoso bandeirante e dono de sesmaria, “funda” a Freguesia do Ó ao estabelecer ali a sede de sua fazenda. Naquela época, os bairros eram chamados de freguesia. Preto também manda erguer uma capela para atender ao povoado que surgiria ao seu redor.

      2.A igreja

Em depoimento a um documentário sobre a história da Freguesia do Ó, o Cônego Noé Rodriges (1917-2012), que foi responsável pela paróquia do bairro por três décadas, diz que a primeira igrejinha funcionou desde 1610 (há um quadro do artista plástico Salvador Ligabue que reproduz a capelinha, não se sabe se é com exatidão). Essa igrejinha foi construída a pedido do bandeirante Manoel Preto, em devoção a Nossa Senhora da Esperança. Era feita de taipa e desapareceu com o tempo. Em 1796 foi criada a paróquia e um edifício maior no Largo da Matriz Velha. Um incêndio acidental a destruiu em 1896. Em janeiro de 1901, por fim, a Nossa Senhora da Esperança mudou de nome: foi construída a grande igreja no Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó. Demorou quatro anos para ficar pronta, com a ajuda braçal dos moradores. Suas festas mais tradicionais são as do Divino (missa solene e procissão quem ocorrem em abril, no dia de Pentecostes), do Assentamento da Cruz (maio) e de Nossa Senhora do Ó (agosto).

      3.A cidade de interior

De sotaque interiorano, os moradores da antiga Freguesia eram em grande parte agricultores. Tinham suas pequenas terras, plantavam e viviam daquilo. Em um certo momento da história, antes do surgimento das pontes (e mesmo depois que elas foram erguidas, em suas primeiras versões de madeira), era preciso ter paciência com a “enervante morosidade da balsa” para atravessar o rio. Essa dinâmica contribuía para o isolamento do bairro.

      4.A caninha

Muita gente ganhou dinheiro com cana de açúcar e aguardente. No começo, era para obter açúcar mesmo, nas grandes extensões de terra. Depois, já no fim do século XIX e começo do o XX, com os sítios fragmentados e os produtores multiplicados, veio a fabricação de pinga. Conta-se que em 1880 existia na capital uma taverna com um ambiente reservado a degustação da caninha da freguesia.   

      5.As porteiras

Assim como o Brás, a Freguesia do Ó tinha suas porteiras. Elas eram as das estradas de ferro Sorocabana e Santos Jundiaí, que passaram a operar no século XIX. As curvas do rio que ainda não tinham sido corrigidas também constituíam limites para os mundos de quem vivia no bairro. Não se estranha que os casamentos ocorressem com frequência entre membros das mesmas famílias, muitos primos de terceiro grau – pouca gente cruzava as fronteiras para se enamorar em outras paragens.

      6.A nova ponte que muda (quase) tudo

Desafiando as limitações do isolamento provocado pelas águas dos rios e as porteiras controladas, a paisagem e o modo de vida na Freguesia do Ó começam a mudar na década de 50, quando um viaduto substitui a precária ponte de madeira, em que até então só passava um carro por vez. A edificação de concreto mudou (quase) tudo. Ela acompanhava a chamada retificação do Tietê, cujo percurso seria reduzido “de 56 para 27 quilômetros” e que deu origem às marginais de “alta velocidade no centro”. Muita gente que já não podia pagar por imóveis e terrenos do lado esquerdo do rio, se mudou para a zona norte. Mas ainda trabalhava “fora”, porque a freguesia não tinha indústria nem comércio para absorver tanta mão de obra.


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