‘A flexibilização provoca, na verdade, aumento de consumo’

Mina Seinfeld de Carakushansky, diretora da Federação Mundial Contra as Drogas

Bruno Boghossian,

18 de junho de 2011 | 00h34

Integrante de uma cruzada internacional contra as drogas há quase 20 anos, a romeno-brasileira Mina Seinfeld de Carakushansky acredita que as passeatas pela descriminalização são feitas por uma "minoria" que não tem poder suficiente para influenciar a população. A pesquisadora, diretora da World Federation Against Drugs (Federação Mundial contra as Drogas) e da Drug Watch International (Vigilância Internacional de Drogas), alerta para os efeitos negativos de uma flexibilização na política de drogas.

O STF acertou ao liberar as marchas da maconha no Brasil?

Estou de acordo com essa decisão no âmbito da liberdade de expressão, mas sou contra uma apologia ao uso da droga que omita os riscos à saúde.

O uso da maconha deve ser descriminalizado?

Não. O fato de as drogas serem legais ou ilegais não faz a menor diferença em relação a seus efeitos sobre o corpo humano. O efeito químico sobre as células não tem nada a ver com votações, opiniões ou leis - é sempre maléfico.

Que efeitos passeatas podem ter sobre a política de drogas?

As pessoas que estão falando sobre essa flexibilização são uma minoria. Trata-se de um grupo bastante ativo, o que faz parecer que grande parte da população deseja isso, mas não é o que acontece. Se fosse feito um plebiscito hoje, tenho quase certeza que a maioria das pessoas diria que não quer que o uso de drogas seja mais generalizado.

Mas as pessoas podem mudar de ideia com as manifestações?

Isso pode até ter um efeito contrário. Em ocasiões passadas, no Rio, vi muitas mães de família que saíram às ruas gritando que não concordavam com a liberação das drogas.

A descriminalização pode reduzir a violência provocada pelo narcotráfico?

Os problemas relacionados a drogas e segurança pública não serão resolvidos em um passe de mágica. A liberação aumentaria o consumo, provocando prejuízos à saúde, à segurança e à sociedade, no âmbito da família e do mercado de trabalho.

Deve-se abrir exceção às chamadas drogas leves?

A ideia de que a maconha é uma droga leve deve ser descartada. O principal elemento psicoativo da maconha vendida nas ruas, o THC, tem concentração de 5%, quando deveria ter 0,5%. As técnicas de neuroimagem atuais também mostram que o efeito da droga no cérebro é maior do que se imaginava há 20 ou 30 anos.

A flexibilização do uso de drogas não teve resultados positivos em outros países?

A flexibilização provoca, na verdade, um aumento no consumo. Foi o que ocorreu na Suécia nos anos 60, na cidade americana de Baltimore, em Portugal e na Holanda. Estudos mostram que houve crescimento de 20% a 50% no uso de drogas e aumento da criminalidade. Em parte desses casos, houve recuo das autoridades, por causa da pressão popular.

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