'A família vive 24 horas em função do dependente'

'Colocamos limites. Meu filho passou a sofrer a consequência de seus atos', afirma mãe de ex-usuário

Ligia Formenti e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2013 | 02h06

"O dependente vive 24 horas em função da droga. O familiar, 24 horas em função do dependente", resume a professora aposentada Sylvia Rocchi Rodrigues Marcolino. Ela soube que seu filho caçula era usuário de drogas em 2002, quando ele mesmo confessou, aos 17 anos.

Sylvia procurou psicólogos e psiquiatras para o filho. Ele foi medicado e, um dia, tomou todos os remédios de uma só vez. "Nada estava dando certo. Procurei então o Amor Exigente, um grupo de ajuda mútua voltado para familiares de dependentes." Sylvia conta que, a partir de então, ela e o marido mudaram de comportamento. Pararam de viver em função do menino. "Colocamos limites. Meu filho passou a sofrer a consequência de seus atos."

O menino também procurou ajuda. Deixou de usar drogas, retomou os estudos, se formou, e hoje trabalha em outra cidade. "Se você me perguntar se ele teve recaídas, não sei. Mas posso dizer é que o comportamento dele mudou. E o meu também."

Superação. Mãe de um ex-dependente de cocaína e crack, a professora Sonia Eli, de 71 anos, conta que teve de bancar o tratamento do filho e chegou a gastar, em uma de internação, o valor de um carro. "Ele sempre sonhou em ter uma picape. Quando saiu da segunda internação, a funcionária da clínica mostrou o valor que gastamos e disse: 'sua picape ficou aqui'."

Aos 22 anos, o jovem, viciado há 5, se livrou das drogas e decidiu cursar Psicologia. "Meu marido, já aposentado, prestou o vestibular para dar apoio moral. Os dois passaram e se formaram juntos. Hoje, 20 anos depois, têm um consultório especializado em atender usuários de drogas", diz.

Pesquisa inédita feita pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que o tratamento de dependentes químicos é, na maioria das vezes, financiado pelos próprios familiares. O trabalho entrevistou 3.142 famílias de todo o País que tinham entre seus integrantes usuários em tratamento. Desse grupo, 58% pagavam do próprio bolso a internação dos pacientes.

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