Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

A fama para quem trabalha para evitar enchentes em SP

Propaganda da Prefeitura destaca a importância de milhares de pessoas para evitar as cheias e para deixar a cidade mais verde

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2011 | 00h00

Entre "olha lá o tio lixeiro" e "olha o moço do comercial", foram 6 anos de trabalho e 33 de vida para Fábio Elias dos Santos. Já para o podador Benedito Monteiro, a fama demorou quase seis décadas e uns bons quilos de grama aparada. Com pinta de modelo, Bárbara Santos era a mais bela entre as varredoras. Só Leandro Marcondes ainda não se viu emergindo de dentro de um bueiro (coisa que faz todo dia) na propaganda da Prefeitura de São Paulo, que transformou os quatro profissionais da limpeza em súbitas celebridades.

O comercial está no ar desde o fim do ano passado e faz parte de uma campanha da Prefeitura para que todo mundo, a exemplo dos quatro, cuide bem do seu lixo. Para pré-selecioná-los, a produtora Carmem Matos passou uma semana na rua acompanhando a rotina de cada grupo. Os pré-requisitos eram ser um de cada categoria (varredor, bueirista, podador e coletor de lixo), ser desenvolto perante as câmeras e topar gravar no domingo, único dia de folga da maioria.

"Minha mulher não acreditou muito nessa história de filmagem no domingo, não", conta Fábio, que no vídeo aparece "pulando" no caminhão de lixo em movimento. Já a beleza de Bárbara Santos foi definitiva para a pré-seleção - não da produtora, mas das amigas de varrição. "Cheguei atrasada no dia do recrutamento, mas minhas colegas já tinham falado de mim para ela."

Depois de passar pelo crivo da Secretaria de Comunicação, eles se tornaram a cara da limpeza na cidade - agora, colhem os louros da fama que não imaginavam que teriam. "No metrô, as pessoas me olham querendo puxar assunto, como se me conhecessem", diz Fábio, que mora em Guaianases, na zona leste. Lá, quem não sabia no que ele trabalhava agora sabe. "É "coletor". Mas todo mundo chama de "lixeiro", né?", diz, chateado.

A fama também fez tocar mais o telefone da casa dos Marcondes em Rio Pequeno, na zona oeste. "Outro dia uma amiga ligou lá em casa e falou que tinha uma mulher interessada no meu marido. Falei: "pode levar, mas tem que ser comigo e as sete filhas junto"", diz Cristiane, mulher de Leandro. "Acho que é porque ele ficou bem na filmagem."

Leandro ainda não viu o comercial por causa da rotina puxada - acorda às 4h e só volta à noite, depois de passar o dia cuidando dos bueiros na zona oeste. Quem conhece Pinheiros por dentro e por baixo sabe que aquele lugar é particularmente difícil de trabalhar. "Tem muito restaurante. Eles jogam tudo para dentro do bueiro e dá o maior trabalho de limpar."

O dia a dia de Benedito, o podador, é um pouco mais colorido: ele faz jardim, e no dia da gravação não foi diferente. "Não fiz nada demais na filmagem, só fiz as árvores, fiz o verde."

Leandro e Fábio sabem na ponta da língua a importância do serviço. "O problema da enchente é que as pessoas jogam lixo na rua, os bueiros entopem e a água não tem para onde correr", diz Leandro. "Mas se a gente deixa de limpar uma coisinha, todo mundo cai em cima", ressalta Fábio, que espera que respeitem mais seu trabalho depois do comercial.

 

 

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