A falta que faz um GPS afetivo

Não me leve a mal se a gente se encontrar por aí e eu não lhe perguntar por seu - com o perdão da palavra - cônjuge ou assemelhado. Aquela criatura, enfim, que me habituei a ver na sua companhia.

Humnerto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2011 | 00h00

Não sei se você já reparou, mas faz um tempo que não peço a ninguém notícias do respectivo ou respectiva. Acabei traumatizado pelas coisas que ouvi nessas ocasiões. Aquele(a) isso-assim-assim?! - e tome regurgitação do pote-até-aqui-de-mágoa, vomitório verbal de fel pós-conjugal, às vezes relatos de farpado mau gosto. Estou escaldado. Mas como não dá para simplesmente fechar o bico, pois poderia passar a impressão de desinteresse, o jeito foi fazer como certo jornalismo hoje em voga: um mínimo de texto. O máximo que você ouvirá de mim será uma indagação vaga, jamais nominal: e o pessoal lá?

A fórmula, admito, nem sempre resolve o problema. O interlocutor pode perguntar: que pessoal? E pode ser ainda que, não havendo mais um pessoal, minha pergunta venha expor fraturas no ego. Ah, tem acontecido. Houve mesmo quem, em lágrimas, literalmente se dependurasse no meu calejado ombro amigo.

Por coisas assim, estou chegando à conclusão de que seria útil criar um serviço, público ou não, que nos permita saber, sem necessidade de indagações, como anda a movimentação amorosa ou conjugal de amigos e conhecidos. Que nos permita trafegar, sem risco de atropelamentos e colisões, na barafunda da paisagem afetiva. Não existe GPS? Por que não um GPS antigafes? Aí já não falo só de cônjuges ou assemelhados, mas também de gente avulsa que possa ter se desentendido com amigos. Eles romperam, mas você não soube.

Concretamente, esse GPS poderia consistir num site com informações atualizadas a respeito de namoros, casamentos, rolos e outros arranjos possíveis entre duas (ou mais) pessoas. Você topa com uma delas e saca logo o celular: peraí, minutinho, chegou aqui uma mensagem urgente que eu estava esperando - e, via internet, faz consulta para saber se é o caso de perguntar por alguém que, no terreno amoroso do interlocutor, seja morador, posseiro ou frequentador eventual.

Deus sabe os apertos que tenho passado por falta de um instrumento assim. Outro dia mesmo, num encontro com o Marcos, depois de um bocado de tempo sem vê-lo, nem sei como sopitei a vontade de perguntar pela mulher dele. Corri o risco de passar por grosseiro. Só vários chopes adiante fiquei sabendo que, depois de duas separações que não deram certo, o casal está vivendo mais uma recaída conjugal. Se já tivessem lançado o tal GPS afetivo, eu teria, de cara, visto na telinha do celular um sinal verde para perguntar pela mulher do meu amigo.

Você vai me dizer que o dispositivo já existe, e que no Facebook, por exemplo, é possível se informar sobre a situação habitacional nos corações alheios. Mas para mim não basta saber que fulano ou fulano está "em um relacionamento sério" (até porque, conforme registrei lá, sou mais "um relacionamento divertido"). Não é voyeurismo não, mas quero, se não detalhes, ao menos nomes. Um quadro mais completo das situações vigentes. Quadro mesmo, cheio de campos; imagine obra de um RH, mas não desses que há por aí: um RH positivo, em cujas planilhas, atualizadas em tempo real, se pudesse saber se alguém está na coluna "comprometido", "desimpedido", "em transição", "dando um tempo", "tico-tico no fubá", "chuteiras penduradas" etc. O GPS afetivo nos guiaria, como esses que orientam os motoristas, e além disso informaria a eventuais interessados se o semáforo está verde, vermelho ou amarelo.

Em alguns casos, é verdade, a atualização do quadro daria trabalho. O daquele amigo, por exemplo, de quem já contei as agruras, incapaz de informar de bate-pronto qual é a sua situação conjugal. Ele se sente casado com o que chama de "mulher bumerangue": se a demite de manhã, à noite ela propõe um cineminha, pois jamais lê bilhetes azuis. O que o levou a concluir, desalentado: às vezes é mais fácil passar alguém para trás do que para a frente...

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