Jonas Chun
Jonas Chun

A embaixadora da Coreia no Bom Retiro

Yoo Na Kim virou símbolo da nova geração, que pretende mudar a imagem fechada da colônia

Valéria França, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2011 | 00h00

Os coreanos começaram a chegar à capital paulista há 48 anos. São conhecidos por terem dominado o maior polo de confecções do Brasil, o Bom Retiro, na região central de São Paulo, e também por ser um povo fechado. A grande maioria dos 60 mil imigrantes que vivem na capital não fala português fluentemente, o que às vezes vem a calhar para quem não faz questão de se comunicar.

E neste cenário apareceu Yoo Na Kim, coreana de 29 anos, filha de dois comerciantes do Bom Retiro, que cresceu na capital e não quis saber do balcão como meio de vida, muito menos dessa história de ficar trancada em sua própria cultura. Yoo Na é hoje uma espécie de embaixadora dos jovens coreanos no Brasil.

Ela abre portas da comunidade para quem é de fora, divulga sua cultura para os brasileiros e ainda vem servindo de ponte entre pequenos e grandes empresários coreanos que estão trazendo seus negócios para cá.

"Quando empresários precisam de funcionários brasileiros que conheçam bem a cultura coreana, eles me procuram informalmente", conta Yoo Na, que repassa uma relação de nomes para as empresas fazerem a seleção.

Inesperadamente, os coreanos estão gostando de ter uma representante jovem, fashion e muito falante. "Todo mundo acha que quem tem olho puxado é japonês. E a gente se ofende com isso", diz a coreana Mônica Kim, de 48 anos, dona da Simple Life, loja também do Bom Retiro.

O trabalho de Yoo Na começou em 2008, quando foi pedir apoio na Câmara do Comércio e Indústria Brasil-Coreia. "Ela queria fazer um livro para mostrar a importância da colônia", conta o presidente Byung Hwun, de 37 anos, mais conhecido como Rafael. "Chegou com a proposta na hora certa. Queríamos alguém que ajudasse a acabar com o preconceito. Fazemos um trabalho honesto e, quando há irregularidades, é uma exceção, não uma regra."

O presidente do órgão se refere às denúncias de trabalho escravo, em que empresas usariam mão de obra boliviana, sem documentos nem registro na carteira de trabalho, com baixa remuneração. "Os brasileiros só conheciam o lado negativo dos coreanos. O Bom Retiro ficou com fama de fazer cópia de roupas, mas há muitas empresas com equipes de estilo ", conta Yoo Na, que conseguiu o apoio de Rafael. Ele puxou outras associações representativas da cultura e da economia local para a causa.

Os livros. E assim, em 2008, Yoo Na publicou A Jovem Coreia, um manual com pinceladas sobre a gastronomia, a dança e o cinema da colônia em São Paulo. Depois veio Na Moda, uma espécie de manual das tendências lançadas pelas confecções, que rendeu mais dois volumes. O terceiro será lançado no fim de agosto. "Pela primeira vez, senti meu trabalho publicamente valorizado", diz Mônica, da Simple Life. E, em 2013, a jovem planeja publicar um livro sobre os 50 anos da imigração da colônia.

Assim como Rafael, Yoo Na faz parte da chamada geração 1.5, a segunda formada por coreanos que chegaram ainda crianças ao Brasil e dividiram a sala de aula com colegas paulistanos. Falam bem o português e muitos deles viraram profissionais liberais.

"Meus pais são da primeira geração. Chegaram a São Paulo casados e com família constituída. Batalharam pela sobrevivência e não tiveram tempo para a vida social", explica ela. Yoo Na, a mais velha de três filhas, é bem "coreaninha" no jeito, define Jonas Chun, de 51 anos, fotógrafo e parceiro nos trabalho editoriais. O que certamente ajudou para que ela conquistasse a confiança da colônia.

A família não entendeu muito, ao menos no início, por que ela não quis casar cedo - Yoo Na é solteira - nem trabalhar na loja de aviamentos da família. Mas se acostumou.

Caminho inverso. No último ano, a jovem passou também a divulgar o Brasil na Coreia. No fim de 2010, organizou um evento de duas semanas na Embaixada do Brasil em Seul, para divulgar a cultura do País. Foram debatidos temas políticos, econômicos e culturais. "Lá, as pessoas costumam me apresentar informalmente como embaixadora", orgulha-se Yoo Na.

De volta à Coreia, agora seu foco é a cultura daquele país. Em parceria com a empresa brasileira Abaquar Produções e a coreana Creek&River, ela produziu uma série de quatro documentários sobre quadrinhos, música pop, cinema e novela. E inscreveu o trabalho na Korea Creative Content Agency, órgão governamental. Dos 265 apresentados, o seu foi um dos 24 selecionados. "A série deve ser transmitida no início de 2012 no Brasil."

Quando está em São Paulo, Yoo Na comparece a todas as festividades da comunidade. Em maio, foi à Festa das Nações, evento realizado anualmente em Piracicaba, no interior do Estado. "Quando a fábrica da Hyundai estiver pronta, a cidade será o segundo maior polo de concentração de coreanos do Brasil", afirma ela, que já está de olho na mudança de panorama.

"O trabalho da Yoo Na é muito importante, mas vai demorar muito para dar resultado", diz o médico Ju Il Seo, de 55 anos, presidente da Associação Coreana. "Acho que vai levar uma década para os brasileiros terem outra imagem dos coreanos. Mas já é um começo."

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