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A divertida relação entre ideologia e felicidade

Não é possível fazer um exame para medir o grau de felicidade de uma pessoa. A felicidade é subjetiva e a maioria das pesquisas se baseia na informação recebida pelo pesquisador diretamente do pesquisado. São dados autorreportados. Agora, um grupo de cientistas inconformados e desconfiados dos resultados obtidos com esse método resolveu medir objetivamente a felicidade. Os resultados são no mínimo divertidos.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2015 | 02h04

As pesquisas baseadas em dados autorreportados produziram resultados interessantes. Um exemplo é a felicidade autorreportada de pessoas com diferentes níveis de renda. Foi demonstrado que rendas muito baixas reduzem muito a felicidade das pessoas. À medida que a renda aumenta, a pessoa afirma que está mais feliz. Mas esse aumento é cada vez menor e se estabiliza quando a renda atinge US$ 20 mil por ano. E o mais interessante é que a felicidade autorreportada nunca atinge 100%, mas se estabiliza for volta dos 85%, mesmo entre milionários.

Mas essa metodologia também produz dados inesperados. O mais controverso é que pessoas que se declaram conservadoras (nos EUA associadas ao partido Republicano) sempre aparecem nesses estudos como mais felizes que as liberais (ligadas ao partido Democrata). De início, os cientistas pensaram que isso se devia a outros fatores, como renda, educação, idade, etc. Mas, mesmo quando os estudos foram repetidos, corrigindo para essas variáveis, a diferença de felicidade autorreportada continuava a aparecer nas pesquisas. Inconformados, muitos cientistas (provavelmente liberais) procuraram explicar a diferença. Hoje, a explicação mais difundida é que os conservadores têm maior tendência à autopromoção (menos modéstia) e isso estaria distorcendo os dados. Mas, sem um método objetivo para medir a felicidade, essa discussão se torna retórica.

Como não é possível medir a felicidade diretamente, cientistas imaginaram que, talvez, fosse possível medir sua expressão, ou seja, comportamentos das pessoas que indiquem felicidade, preferencialmente comportamentos que sejam pouco controlados pelo sistema consciente. Para desenvolver a metodologia, resolveram reanalisar a diferença de felicidade entre os democratas e republicanos.

No primeiro experimento, os cientistas analisaram estatisticamente os pronunciamentos feitos no Congresso americano por 100 senadores e 433 deputados, em 2013. Com um software, foram identificadas frases e palavras que denotavam emoções positivas e negativas, usando critérios como o PNAS-X (Positive and Negative Affected Schedule: Expanded Form). Além disso, os políticos foram classificados em um gradiente ideológico, usando seu padrão de voto. O padrão de uso de palavras foi plotado contra o espectro ideológico. O resultado é claro. Quanto mais liberal o político, mais ele usa palavras relacionadas à felicidade e expressa emoções positivas, indicando que os democratas expressam mais felicidade que os republicanos.

Num segundo estudo, foram analisados os sorrisos desses mesmos políticos. Sabemos faz muito tempo que os músculos da face usados durante um sorriso são diferentes se o sorriso é espontâneo ou forçado. Usando um software que analisa fotografias, e descobre qual músculo facial está se contraindo, os cientistas analisaram todas as fotos desses mesmos políticos. Essa análise confirmou o primeiro experimento. Os políticos liberais sorriem de maneira mais espontânea e mais raramente são fotografados com sorrisos forçados. Ou seja, demonstram felicidade com maior frequência.

Um terceiro estudo foi feito usando dados do Twitter. Três mil pessoas que seguiam políticos conservadores e 3 mil que seguiam liberais foram selecionadas. Os textos de 47.257 postagens no Twitter dessas pessoas foram analisados com o mesmo método usado para estudar os discursos dos políticos. Novamente os resultados demonstram que os liberais usam mais palavras positivas que os republicanos e, aparentemente, demonstram mais felicidade.

Finalmente, o mesmo estudo com as fotos dos políticos foi feito com o LinkedIn de pessoas associadas a organizações liberais ou conservadoras (foram analisadas as fotos de 500 pessoas, metade de cada grupo). Novamente os liberais mostraram mais sorrisos espontâneos.

Com base em todos esses estudos, os pesquisadores concluem que, apesar de os republicanos afirmarem ser mais felizes, os democratas expressam mais frequentemente sinais externos de felicidade. Isso comprovaria a tese de que o excesso de felicidade dos republicanos se deve mais à autopromoção que à felicidade. Qualquer que seja a verdade, esse estudo demonstra que a felicidade é difícil de medir e, provavelmente, é composta por diversos aspectos do estado mental de uma pessoa. Ainda vai levar tempo até que um laboratório de análises clínicas seja capaz de oferecer uma medida objetiva de nossa felicidade.

*Fernando Reinach é biólogo. 

MAIS INFORMAÇÕES: CONSERVATIVES REPORT, BUT LIBERALS DISPLAY, GREATER HAPPINESS. SCIENCE VOL. 347 PAG. 1243 2015

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