Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A derradeira invenção do cérebro humano

Você se lembra do Hal 9000, o computador superinteligente que Stanley Kubrick criou no filme 2001: Um Odisseia no Espaço? Ele era amigo e companheiro do tripulante de uma nave espacial. A relação azedou quando Hal decidiu que sua missão era mais importante do que os desejos do tripulante. No embate, Hal tenta assassinar o tripulante e tudo termina em tragédia quando, em um ato desesperado, o tripulante desliga aos poucos o computador, que lamenta, suplica, se infantiliza e morre.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2014 | 02h03

O cientista que ajudou Stanley Kubrick a criar Hal foi Irving Good, um matemático que pertencia ao grupo de cientistas arrebanhados por Alan Turing (o pai da computação), em Bletchley Park, uma casa no interior da Inglaterra. Foi nessa casa que matemáticos, estatísticos e criptógrafos trabalharam durante a Segunda Guerra Mundial decifrando as mensagens criptografadas dos alemães. Muitos acreditam que o sucesso desse time foi uma das razões para que os aliados fossem bem-sucedidos na invasão da Europa.

Em 1965, antes de ajudar Kubrick, Irving Good publicou o ensaio Especulações, sobre a primeira máquina ultrainteligente, em que discute as possíveis consequências de criarmos um computador mais inteligente do que o mais inteligente ser humano:

"Vamos definir uma máquina ultrainteligente como uma máquina capaz de superar, em todos os aspectos, as atividades intelectuais de um ser humano. Como a construção de máquinas é uma dessas atividades intelectuais, uma máquina ultrainteligente poderia criar máquinas ainda melhores, o que provocaria, de maneira inquestionável, uma explosão de inteligência, e a inteligência do ser humano seria deixada para trás. Portanto, a primeira máquina ultrainteligente seria a última invenção que o homem teria de fazer, isso contanto que essa máquina fosse dócil o suficiente para nos contar como mantê-la sob controle."

Nos últimos 50 anos, a ideia de sistemas de computação mais poderosos do que o cérebro humano circularam discretamente. Mas, na última década, quando finalmente conseguimos produzir sistemas capazes de superar o cérebro humano em tarefas específicas, esta ideia está voltando à tona. Hoje existem computadores capazes de vencer os melhores cérebros humanos em jogos de xadrez. Sistemas em nuvem, que podem ser utilizados por qualquer ser humano que possua um telefone celular, colocaram à disposição capacidades que são vastamente superiores às de nosso cérebro. São sistemas como o Google, que não passa de uma extensão de nossa memória, e o Waze, capaz de nos orientar de maneira muito mais eficiente do que nosso limitado e desorientado cérebro.

Com esses desenvolvimentos aos poucos começamos a vislumbrar no horizonte a possibilidade de criar uma máquina superinteligente como a descrita por Irving Good. Mais inteligente que um ser humano, capaz de reproduzir e criar seus próprios descendentes (ainda mais inteligentes). Muito provavelmente essa máquina será muito diferente dos computadores atuais.

Por esse motivo, as preocupações listadas por Irving Good estão voltadas a ocupar filósofos e cientistas que imaginam o futuro. E as perguntas que eles se fazem são as seguintes: será que é possível criar e controlar uma máquina desse tipo? E se não tivermos certeza de que somos capazes de controlá-la, vale a pena ir em frente e correr o risco? Como será viver em um mundo onde a inovação não será mais feita por cérebros humanos?

É assustador imaginar que uma máquina como essa pode ser a derradeira invenção do ser humano e que após sua criação poderemos passar a ser a segunda espécie mais inteligente no planeta. Será que nos tornaremos tão dependentes quanto os cachorros hoje dependem de nossas vontades e tecnologias? E, tudo isso, se essas máquinas acreditarem que vale a pena nos manter vivos.

Se você se interessa por esse tipo de exercício mental, o novo livro de Nick Bostrom, filósofo de Oxford (Superinteligence. Paths, Dangers, Strategies, Oxford University Press 2014), é um prato cheio.

É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.