A crônica da chacina que deixou 15 mortos em Guaíra

Cidade na fronteira com o Paraguai tenta superar o trauma da chacina causada por vingança entre traficantes

Bruno Paes Manso, enviado especial de O Estado de S. Paulo,

28 de setembro de 2008 | 00h09

Depois de dois dias de luto, o Colégio Estadual Jardim Zeballos, uma das 26 escolas públicas da cidade de Guaíra, no oeste do Paraná, abriu os portões às 7h30 de quinta-feira. Na aula de educação física, os alunos resistiam em iniciar as atividades na quadra de futebol. Na sala dos professores, a diretora Célia Moreiro Wessel discutia com o corpo docente como reerguer a escola e tirar alguma lição da tragédia que abalou a cidade e deixou 15 mortos em uma chacina na segunda-feira, 22. Principalmente aquele grupo de mestres e estudantes, que tentavam achar algum sentido para retomar a rotina.   Veja também: Galeria traz fotos de Guaíra  Ouça o relato do repórter Bruno Paes Manso  Ouça o relato do fotógrafo Tiago Queiroz    Na chacina de 15 pessoas, na Chácara do Polaco, a cerca de dois quilômetros da escola, quatro entre os mortos eram alunos do Zeballo. Mizael, de 16 anos, filho do dono da chácara onde ocorreu a tragédia, estava na 5ª série. Leonardo, de 16, estudava na 6ª. André e Alex, ambos com 17 anos, estavam na 5ª. Outros dois alunos estiveram no massacre. Mas sobreviveram por milagre. Rogério, de 17 anos, saiu correndo quando viu uma pessoa ser morta ao seu lado, com um tiro na cabeça. Na fuga, levou uma bala nas costas e caiu no chão. Em seguida, ouviu um dos comparsas sugerir outro tiro na cabeça, que não veio. Ele fingiu-se de morto por duas horas, ouvindo os demais morrerem e agonizarem até poder pedir ajuda.   Fernando, de 16 anos, dono de boas notas no 2º colegial, estava ao lado de Karen Vanderlei Soares, de 18 anos, a outra filha do dono da chácara, no galpão onde sete pessoas foram executadas. Na sessão de tiros que fuzilou o grupo, Fernando não recebeu nenhum disparo. No momento da confusão, passou o sangue de Karen no rosto e fingiu-se de morto. Foi ao velório dos amigos, mas não voltou para a escola.   Se não bastassem os seis mortos e feridos, eram alunos do Zeballo os familiares dos executores. Gleibson Corrêa, de 18 anos, filho de Jair Corrêa, de 52 anos, que comandou o massacre, apontado pela polícia como o principal suspeito de ser o terceiro chacineiro que se manteve encapuzado durante o crime, estava no 3º colegial. Duas netas de Jair, filhas de Dirceu Pereira de França, de 35, morto um mês antes da chacina, estudam na 6ª e 8ª séries.   Na secretaria da escola, enquanto preparava a atividade que trataria do massacre com os alunos no primeiro dia depois do luto, a professora desabafava com os assistentes. "Se uma tragédia desse tamanho já é dolorida, revolta mais a forma como o crime e as vítimas estão sendo tratados. Fala-se de briga de quadrilha e da morte de traficantes e de drogados. Gente... Não podemos simplificar dessa maneira. Morreram alunos, filhos, pais, colegas de classe, pessoas que vivem numa cidade cheia de problemas".   O massacre de Guaíra   Sem o filtro do olhar da polícia, fica mais fácil de se ver os dilemas, dramas e desafios que o massacre de Guaíra revela para a juventude da cidade. Ele começou a se desenhar pelo menos um mês antes, na noite de 20 de agosto. Dirceuzinho, o pai das duas alunas do Zeballos, foi assassinado. Ele havia voltado naquele dia de uma viagem a São Paulo, onde entregara uma carga de drogas avaliada em R$ 19 mil. Jossimar Marques Soares, de 41 anos, o Polaco, dono da chácara onde ocorreria o massacre, havia fornecido a droga a Dirceuzinho, que não pagou.   Dono de um boteco chamado Big Brother, colado ao muro do Colégio Zeballo, uma das oito bocas de fumo investigadas pela Polícia Federal na cidade, Dirceuzinho e Polaco eram parceiros. O elo foi rompido naquela noite, quando Dirceuzinho recebeu um telefonema de Manoel Pascoal da Silva, o Nel, de 28 anos, também parceiro de Polaco, que o chamava para conversar. Nel e um comparsa, Nelsinho, armavam uma tocaia para matar Dirceuzinho, que morreu com seis tiros.   Entre a morte de Dirceuzinho e o massacre, a polícia civil pouco fez para prender os acusados de homicídios. Com oito funcionários e 211 presos na cela que nos fundos da delegacia, feita para 50 pessoas, não sobra tempo para as investigações. O padastro de Dirceuzinho, Jair Corrêa, que um mês depois comandaria a chacina, testemunhou na polícia dizendo quem eram os autores do crime. Mas eles continuaram soltos.   Vingança   Coube a Jair Corrêa tocar seu plano de vingança, que começou no velório do enteado dele, quando Jair disse a alguns que mataria toda a família de Polaco, mandante do crime. Jair era conhecido como um homem violento, que já havia trabalhado como segurança para Roque da Silveira, nascido em Guaíra, filho do ex-prefeito da cidade, Osvaldino da Silveira, que se tornou um dos principais fabricantes dos cigarros paraguaios que são contrabandeados para o Brasil passando pela cidade. Segundo vizinhos, na noite que Dirceuzinho morreu Jair chegou a fotografar o corpo do enteado para manter a raiva acesa.   Na segunda-feira, dia 23 de setembro, mais de um mês depois do primeiro crime, a vingança aconteceu. Começou nas primeiras horas do dia, às 7 horas. Os três chacineiros chegaram por barco à Chácara de Polaco, um amplo terreno na zona rural de Guaíra, a 800 metros do Rio Paraná.   Intermediador da maconha que chega do Paraguai com destino a São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, o negócio de Polaco já não rende o mesmo que antes da sua prisão, ocorrida em 2007. Tanto que ele andava na cidade com um velho corcel amarelo e a esposa dele trabalha como empregada doméstica na casa de um carcereiro da polícia.   A Chácara não pode ser classifica simplesmente como uma boca de fumo. O filho de Polaco, Mizael, também vendia porco, galinha e leite para a vizinhança. Eles tinham oito vacas pastando no terreno em frente da casa. Como Polaco não vende quase nada para o varejo, recebendo comissão, Polaco para intermediar os contatos entre os paraguaios e os varejistas e ajudando no transporte da droga com ajuda de uma rede de parceiros, predominava o ambiente rural.   No começo da manhã, os chacineiros chegaram em meio a essa tranqüilidade típica de um sítio a beira-rio. Estavam no local apenas Mizael, o pedreiro Claudiomar Felix dos Santos, de 42 anos, que reformava o piso da chácara para receber R$ 30 no final do dia, e o filho dele, Oséias, de 9 anos. Os três vinham com uma espingarda calibre 12, uma 9 mm e uma pistola 38, compradas na vizinha Salto de Guayra, no Paraguai, nova meca das compras, onde adquirir armas é quase tão simples como comprar um iPod.   Depois de rendidos, os três foram levados para dentro da casa. Às 7h30, chegaram em um monza Robert Romão Gonçalves Rios, de 34 anos, morador da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que havia vindo à Guaíra para tentar fazer novos negócios com drogas e cobrir algumas dívidas feitas na cidade. Chegou acompanhado da mulher, L., de 16 anos, que conheceu em Guaíra, com quem teve a menina Daniela, de 1 ano e 7 meses, que chegou com os dois.   Os três foram rendidos logo que chegaram e obrigados a ficar no quarto com os outros três que já estavam no local. Jair Correa, que assim como os outros chacineiros chegou encapuzado, retirou a máscara e passou a exigir que Mizael chamasse o pai e a mãe, para cumprir a vingança contra a família. Mizael contou que estava no trabalho de empregada na casa de um policial. Jair não acreditou, deu um tiro no menino, que agonizou por pelo menos uma hora antes de morrer.   Com o filho morto e cinco presos, Polaco chegou desavisado com seu corcel. Quando viu Jair e o grupo armados, tentou atropelá-los, mas recebeu um tiro na perna. Ferido e com o filho morto, Polaco foi obrigado por Jair a chamar Manoel, autor da morte de Dirceu, e seus comparsas no negócio das drogas, entre eles Zaqueu Herculano, de 34 anos, e Milton Gonçalves, de 44, o Miltão. Por ordem de Jair, Polaco ligava no celular e os convidava para um churrasco que ocorreria naquele dia.   Miltão recebeu a ligação em seu bar, o Malvinas, na frente do Colégio Zeballos. Avisou sobre a boca livre a Alex, seu sobrinho, de 17 anos, estudante do colégio, que o acompanhou. Marcelo Kranke Paulo, de 25 anos, outro integrante do grupo, também foi chamado e levou a mulher, Karen, de 18 anos, filha de Polaco.   Enquanto as pessoas iam chegando, os três chacineiros bebiam pinga misturada com as laranjas da fazenda. Ao longo de cinco horas, chegavam pessoas que tinham recebido o telefonema e também outros que foram ao local por diferentes razões. André, de 17 anos, colega de Mizael no Colégio Zeballo, foi para a Chácara por volta das 9 horas para levar uma galinha que acabara de dar cria de um galo índio, que ele e o pai, Lazaro, criavam para disputas de rinhas.   A galinha era de Mizael. Como André demorava, Lazaro mandou o sobrinho, Reinaldo Martins de Melo, de 28 anos, verificar o motivo da demora. Os dois nunca mais voltaram. "Nem que seja a última coisa que eu faça, preciso provar que meu cunhado não era traficante, ao contrário do que disseram", lamentava, na quinta-feira, Eliana Aparecida Bueno, aos prantos, casada com um dos 18 irmãos de André. Desorientada, ela buscava na Prefeitura os antecedentes do cunhado. A polícia, depois, confirmou que André não tinha antecedentes.   Renato Ramos de Oliveira, o Renatão, agricultor de uma família de bóias-frias, havia ido buscar a bomba de água que havia sido roubada da casa onde morava com a família. Sem saber a origem da bomba, Polaco havia comprado o objeto do ladrão e se comprometeu a devolver a Renato quando soube que era dele. Pegou carona na moto de Fernando, colega de Mizael no Colégio Zeballos. Somente Fernando sobreviveu. "Nesses últimos dias, a gente tinha que carregar a carroça de garrafas para conseguir ter água em casa", dizia Renata Ramos de Oliveira, irmão de Renatão, talvez a vítima mais pobre, que não tinha documentos e que foi o último a ser reconhecido.   Rogério, outro colega de Mizael, também havia ido à Chácara, com o amigo Fernando Vieira Bradish, às 10h30 da manhã, falar com o garoto sobre a negociação de um cavalo. Conforme chegavam, iam sendo rendidos, presos e assassinos, num massacre que alternava mortes isoladas e grandes execuções. Rogério ainda conseguiu escapar.   No intervalo da matança, quando Mizael já estava morto a mais de uma hora e outras vítimas já haviam sido assassinadas, um dos autores encapuzados, provavelmente Ademar Fernando Luiz, de 28 anos, o do Blake, que junto com Jair Corrêa teve a prisão decretada, pulou em cima do corpo de Mizael e o encheu de facadas. Segundo testemunhas, quando a pinga acabou, ele dizia que queria beber sangue. No decorrer em que as mortes ocorriam, a situação parecia cada vez mais fugir ao controle. Um papagaio criado na Chácara foi estrangulado e jogado na pia. Com os reféns em desespero, Jair Corrêa apontou a pistola para Daniela, a criança de 1 ano e 7 meses. O pai da menina, Robert, o morador da Rocinha, partiu para cima dele. Claudimoar, o pedreiro, foi junto. Nesse momento, L. jogou a criança pela janela e conseguiu escapar, com o menino Oséias e a criança, que ela apanhou do lado de fora da casa. O marido dela e o pai de Oséias foram assassinados nessa hora.   A ameaça de reação atiçou ainda mais os ânimos dos matadores. No galpão da Chácara, onde estava a maioria dos rendidos, os disparos começaram a correr soltos. Testemunhas depois disseram que, no auge, quando as vítimas eram assassinadas por atacado, os tiros duraram cerca de 30 minutos sem parar. Quinze pessoas morreram. Milagrosamente, oito escaparam, numa matança que poderia ter passado de 20 vítimas.   Num caso que, mesmo ainda que não seja totalmente compreendido, marcou para sempre a história e os rumos a serem escolhidos pelo município de Guaíra, que no ano passado já ficou em primeiro lugar entre as cidades com o maior número de mortos por arma de fogo - com índice de 94,7 assassinatos por 100 mil habitantes. Depois do crime, uma pergunta continuava a assombrar autoridades, professores, pais, filhos e moradores da cidade. Virão novas vinganças? Quando o ciclo vai se interromper? Reflexão   Com a história da tragédia ainda longe de ser assimilada, os alunos do Colégio Estadual Jardim Zeballos desceram para o pátio às 9h30. Cerca de 200 crianças, entre 11 e 16 anos, sentaram-se nas cadeiras colocadas do lado de fora da sala de aula, esperando para saber o que os professores tinham a dizer.   Antes de pegar o microfone, a diretora Célia Moreiro Wessel lamentava que teria que recomeçar tudo da estaca zero. Depois de dez anos de existência, a escola vinha finalmente conseguindo afastar a fama de violenta ao classificar os dois alunos que representariam a cidade nas olimpíadas de português e matemática. O ano promissor havia se tornado um pesadelo.   "Esse é um momento para reflexão", disse ela no microfone, para os alunos. "Precisamos a partir de hoje refletir mais sobre nossas vidas. O mundo aí fora oferece muitas escolhas. Devemos pensar nos caminhos que a vida oferece. Para escolher os que realmente são melhores para a gente".   O pastor o evangélico Genésio Araújo, da congregação Nação de Deus, tomou a palavra em seguida. Ele cantou uma música cuja letra desaconselhava "viver aventuras perigosas". Leu o capítulo 19 do Evangelho de Lucas e depois pediu a todos os estudantes que dessem as mãos. "Olhe para quem está ao seu lado. Eu não sou ninguém se quem está ao meu lado não é ninguém. Eu só sou alguém se quem está ao meu lado não é alguém", disse.   Uma criança de 10 anos, cujo pai está preso em Maringá, precisou ser atendida na sala dos professores porque chorava muito. O pastor depois lamentou ser preciso buscar lições em uma tragédia. "Não é preciso se queimar para aprender que não devemos colocar a mão no fogo", disse. "O importante não é o que estou falando. Mas o que vocês estão ouvindo". Quando o encontro acabou, os alunos voltaram para a sala de aula. Era preciso, de alguma maneira, tentar retomar a rotina.

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