A crise vai continuar, dizem especialistas

Em 12 meses, número de ações contra companhias aéreas saltou de 92 para 391

Naiana Oscar, do Jornal da Tarde

28 de outubro de 2007 | 09h12

Se a comissária de bordo fosse tomada de uma sinceridade súbita e, entre as informações decoradas resolvesse dar uma satisfação de como anda a crise aérea brasileira, talvez suas palavras fossem estas: "Atenção senhores passageiros, estamos passando por uma área de turbulência... por favor, apertem os cintos pelos próximos dois anos". Essa é a previsão dos especialistas mais otimistas passado um ano do primeiro colapso no sistema aéreo brasileiro, no feriado de Finados de 2006. Os problemas já vinham se avolumando desde o acidente com o Boeing da Gol, que deixou 154 mortos em setembro de 2006.  Com esse cenário, é fácil entender o que houve no Aeroporto Congonhas na segunda-feira passada, um dia depois do Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1. As filas constrangedoras para o check in, a confusão na sala de embarque e a espera dentro e fora dos aviões deixaram o caos evidente de novo. A justificativa da Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero): chuva associada ao fim do evento internacional em São Paulo. "Os fatores meteorológicos afetam aeroportos no mundo inteiro mas, com a crise, o que seria uma hora de espera, vira quatro, cinco", explica o presidente do Instituto Brasileiro de Estudos Estratégicos e de Políticas Públicas em Transporte Aéreo , Respício do Espírito Santo.   Assim, fica difícil apagar as cenas do caos: controladores de vôo em greve em pleno Finados, no ano passado, depois de serem responsabilizados pelo acidente com o avião Gol; passageiros dormindo nos aeroportos, invadindo pistas, agredindo funcionários; a cada dia, uma nova revelação trazia a certeza de que voar no Brasil não é seguro; até o dia 17 de julho, quando um avião da TAM derrapou em Congonhas, matando 199 pessoas.  Mesmo com a chegada de Nelson Jobim ao Ministério da Defesa, a troca de comando na Infraero e a tentativa de reestruturação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a crise continua. Os especialistas não têm dúvidas na hora de apontar os motivos: faltam planejamento e políticas de longo prazo. Até agora, pouco foi feito em relação à terceira pista de Cumbica e ao terceiro aeroporto da região metropolitana. A abertura de concurso público para controladores só surtirá efeito daqui a dois anos, quando servidores concluírem a formação. "A crise não surgiu com o acidente da Gol. A falta de investimento é antiga e reverter a situação levará tempo", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Transporte Aéreo, Anderson Correia.   A demora será ainda maior se a Anac não se resolver. Os diretores foram afastados, novos nomes, indicados, mas falta a aprovação do Senado para que assumam seus postos. O presidente Milton Zuanazzi se recusa a sair, mesmo diante dos protestos do ministro. "Enquanto não houver uma boa comunicação entre esses órgãos, tudo ficará emperrado", disse.   Congonhas foi desafogado, o número de pousos e decolagens diminuiu; escalas e conexões ficaram proibidas. "É uma simples transferência de problema", diz Correia.   O professor do Departamento de Transportes da Escola Politécnica da USP, Jorge Medeiros, diz que o controle de setor por apenas duas empresas - TAM e Gol dominam juntas 88% do mercado - potencializa a crise. "O governo deve intervir e abrir espaço para outras." Perguntas sem respostas  *Por que os passageiros continuam sem informação nos aeroportos?*Por que a espera foi transferida da sala de embarque para o interior das aeronaves?*Por que ainda não temos um plano aeroviário nacional? *Quais são as políticas de longo prazo para o setor aéreo? *A região metropolitana de São Paulo terá um terceiro aeroporto? Até quando o mercado da aviação comercial continuará concentrado em apenas duas empresas? *Até quando Aeronáutica, Infraero e Anac vão trabalhar sem integração?

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