A Copa do Mundo é nossa

Aos cinco anos eu tinha certeza de que os jogadores de futebol eram crianças. Eles apareciam tão pequenininhos na nossa Telefunken 22 que eu pensei que a Copa de 82 fosse uma espécie de gincana, como as do programa da Xuxa, a qual meus pais poderiam me levar, caso eu insistisse. Foi um choque quando me explicaram que as pessoinhas de uniforme colorido eram todas adultas e, portanto, a minha participação no Mundial da Espanha estava fora de questão. Perguntei a meu pai quantos anos tinha que ter para jogar na Copa, "no mínimo uns 17", ele respondeu, mas 17 era uma daquelas quantidades incompreensíveis, que não cabiam nem em todos os dedos das duas mãos, como 73 ou dez milhões, de modo que me resignei.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2010 | 00h00

O primeiro mundial a que assisti tendo idade para participar foi o de 94. Tinha 17, finalmente, como Pelé, em 1958. Ronaldo, com 19, foi escalado, mas ficou no banco. Dali em diante, as Copas passaram a ser jogadas por meus colegas de geração, e eu percebi que, apesar de ser um perna de pau e jamais ter chegado perto sequer da seleção da escola, a idade criava entre mim e os jogadores um vínculo. Aquela ligação que, como sabem os romancistas e roteiristas, é fundamental para a fruição de toda narrativa, seja ela um romance, um filme ou um jogo, e que faz com que vejamos o protagonista, super-herói ou artilheiro e pensemos, "ó eu lá!".

Em 94 e 98, eu sorria por dentro quando os comentaristas diziam que algum jogador estava amadurecendo ou tinha algumas Copas pela frente. Era eu lá, com a grama sob os pés e o futuro pela frente. Em 2002 e 2006, já olhava os novatos com alguma superioridade. Afinal, estava no auge da forma física, em minha terceira, quarta Copa, sentia-me parceiro de Cafu e Roberto Carlos, poderia até vestir a braçadeira, caso "o professor" pedisse.

Nestes últimos dias, assistindo aos jogos da primeira fase, peguei-me estranhamente melancólico. Pensei que fosse consequência inevitável das partidas chochas, até que meu amigo Guga, tomado por tristeza semelhante, comentou que essa era nossa última Copa.

Em 2014, estaremos com 36 anos. Dificilmente seríamos escalados, por melhor que fôssemos. Poderíamos tentar estender a carreira lá fora. Arábia, quem sabe Japão - o Cosmos ainda existe? -, mas ambos concordamos que continuar para além de nossas capacidades seria um pouco triste. Mais sensato tornarmo-nos comentaristas esportivos, caso nos convidassem.

Fazer o quê? É a vida e tenho de me conformar com o fato de que, daqui em diante, os jogadores vão ficando cada vez mais novos. Até o dia em que, lá adiante, olharei a TV e terei a impressão de que não passam de crianças, dentro dos uniformes coloridos. Dessa vez, não estarei errado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.