A cidade que tem de viver com terremotos

Só na semana passada, Montes Claros tremeu 4 vezes; moradores dormem até em carros

MARCELO PORTELA , MONTES CLAROS (MG), O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2012 | 03h02

Secas no Nordeste, enchentes no Sul e no Norte. Brasileiros de várias cidades precisam adaptar a rotina a fenômenos climáticos. Mas Montes Claros, em Minas, tem um desafio diferente: seus habitantes têm de aprender a conviver com terremotos. Enquanto isso, chegam a morar no quintal - e mesmo no carro.

É pelo menos um abalo por ano - são 23 desde 1995, segundo o Observatório Sismológico (Obsis) da Universidade de Brasília (UnB). O mais forte, porém, ocorreu há oito dias, atingiu magnitude 4.5 na escala Richter e foi sentido em toda a cidade. Nos dias seguintes, houve mais três tremores menores - resultando em "pavor total" da população.

"Foi horrível. Vi a parede envergando e tudo tremendo. Saí correndo de casa e, quando cheguei na rua, vi que todos os vizinhos tinham saído assustados", disse a dona de casa Regina Pereira de Souza. Seu marido, o pedreiro Wedson Gomes de Aguiar, de 38 anos, estava na oficina consertando o carro e conta que, ao ouvir o estrondo que precedeu o tremor, achou que tinha sido uma batida de caminhões.

Com medo de novos tremores, o casal mandou a filha para a casa de parentes e optou por passar a noite seguinte no carro da família, um Gol. "Nunca pensei que o carro ia servir para dormir. Mas ficamos com medo de dormir em casa", diz o pedreiro.

A "casa" deles, porém, logo será a da avó, pois a residência do casal foi condenada pela Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec) e terá de ser demolida. Aguiar tinha comprado o imóvel havia oito meses e já sabia que teria de demoli-lo - não havia pilares de sustentação das paredes. "Eu comecei a construir nos fundos e depois ia derrubar a casa. Agora, dá medo até de entrar para pegar as coisas."

A residência fica na Vila Atlântica, na região de Grande Santos Reis, onde, segundo a prefeitura, vivem cerca de 30 mil pessoas espalhadas em várias vilas e favelas. Foi a área mais afetada pelos tremores, segundo Madson Malveira, chefe da Comdec de Montes Claros. Uma semana após os abalos, técnicos da Defesa Civil e dos bombeiros já haviam feito 60 vistorias, tinham mais 120 pedidos na lista e haviam interditado 12 imóveis na cidade, quase todos nessa região.

São moradias como a do aposentado Domingos Soares de Oliveira, de 84 anos, que ele mesmo construiu "há mais de 40 anos". Seu Domingos estava na igreja quando sentiu o tremor. Como o templo não foi afetado, não se preocupou. "Só quando cheguei em casa, vi o estrago", disse. No imóvel feito de adobe, rebocos de paredes inteiras caíram e não sobrou uma sem rachadura. O aposentado improvisou uma barraca de lona no quintal. "Vou ficar aqui até arrumar algum recurso para fazer (a casa) de novo."

Armados. Segundo Malveira, há várias residências sob risco, mas apenas dez pessoas aceitaram ir para o albergue público e 18 procuraram abrigo com parentes ou amigos. "Temos de vistoriar casas já com termo de responsabilidade, porque as pessoas não querem sair. Somos recebidos por gente com arma na cintura", contou. "Aqui, as construções são feitas sem técnica, planta ou engenheiro. Precisamos ensinar as pessoas a conviver com os tremores."

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