A cidade em dois tempos

Ensaio compara a capital ainda acanhada com a megalópole de hoje

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2010 | 00h00

Castelinho, na esquina das ruas São João e Apá, em Santa Cecília

 

Da taipa-de-pilão ao tijolo e concreto, passando pelas belas casas modernistas e também pelos discutíveis prédios neoclássicos, São Paulo foi construída e destruída inúmeras vezes, aumentando a sensação de uma capital eclética, diversificada e multifacetada. Ao mesmo tempo, esse imenso mosaico urbano também acaba muitas vezes por esconder grande parte da memória paulistana, principalmente no que diz respeito à história de ruas, endereços e pessoas que fizeram a cidade ser o que ela é hoje. As "São Paulos" do café, da belle époque e do brutalismo acabaram quase renegadas, escondidas por pontes pesadas, prédios comerciais cheios de vidros e edifícios residenciais.

 

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Atualmente, olhando para a capital, é deveras difícil vislumbrar essas lembranças. Os únicos vestígios dessa memória estão em fotografias antigas, que guardam perfis esquecidos de São Paulo. Para visualizar melhor essas mudanças, o Estado pediu a diversos colecionadores de imagens históricas da capital que escolhessem e enviassem os instantâneos mais surpreendentes de seus acervos, que justamente revelam a genealogia da cidade. A ideia veio de um projeto virtual do fotógrafo americano Jason Powell, que colocou em sua página na internet fotos de paisagens urbanas antigas em sobreposição ao mesmo local nos dias de hoje - mostrando assim o contraste entre passado e presente.

Contraste. Replicado por aqui, o projeto coloca a São Paulo de ontem na São Paulo de hoje, ajudando a compreender as transformações urbanas e a ver de uma forma diferente a beleza que ainda resiste na cidade. Com as alterações estéticas, é possível também enxergar o contraste do espírito de dois tempos, da São Paulo ainda acanhada com a megalópole de hoje. É como se a amálgama das duas realidades materializasse a lembrança de São Paulo, misturando concretamente o passado e o presente.

"Com a comparação, dá para ver claramente toda a história que perdemos", diz o fotógrafo Douglas Nascimento, um dos colecionadores que ajudaram no ensaio. "Quanto mais tradição você possui, mais memória você tem, mais civilizado você fica", completa o pesquisador Ralph Mennucci Giesbrecht, que também dividiu seu acervo fotográfico com a reportagem. "Só assim você consegue se identificar melhor com sua a própria cidade."

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