A ceia dos ausentes

São de Galileo Emendábili (1898-1974) dois comoventes conjuntos escultóricos alusivos à morte, para dois túmulos: um, no Cemitério da Consolação, e outro, no Cemitério São Paulo. São representações do lugar social da mãe de família na vida e na simbolização da dor da separação trazida por sua morte, a mãe que não perece, a mãe como centro e referência dos que vivem ao seu redor e ao redor de sua memória.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2011 | 03h04

Na escultura do Cemitério São Paulo, o pai está sentado à cabeceira de uma mesa, propositalmente longa para convidar quem vê a obra a compreender o vazio da morte na ausência de comensais, os filhos que não nasceram, a solidão dos que ficaram. Há no gesto de suas mãos semi-abertas em direção ao comprido da mesa a atitude patriarcal com que tem início simbolicamente a refeição na presença invisível e imaginária de uma protagonista ausente. É o que dá sentido ao ritual de renovação cíclica da vida, alimentada pela memória. Gesto de partilha, da comunhão cotidiana em família. Sobre a mesa há um pão que nos fala da ceia da família como eucaristia e sacramento. À direita do pai, um menino reclina a cabeça em desamparo sobre os braços na mesa apoiados, num gesto de resignada espera na solidão daquela hora litúrgica.

A ceia dos ausentes, de Galileo Emendábili, não se destina a saciar os famintos, mas a anunciar a fome de presença dos que se foram antes do tempo, sem dizer adeus. Nela, o artista não nos fala propriamente dos mortos, mas da vida no débito cotidiano da saudade dos que partiram. Emendábili preferiu não falar da morte como o êxtase do último suspiro, da ruptura que há em tantos monumentos funerários. Antes, preferiu representar a morte como ausência cotidiana dos que amamos, a ausência como carecimento do que nos faz inteiros e humanos.

Já na obra do Cemitério da Consolação, Emendábili nos põe diante de uma representação da morte que completa a obra anterior, mas dela difere. Ali, um pai de família ampara uma menininha com a mão direita e com a esquerda, à altura do coração, faz um gesto de despedida. A menina, de mãos juntas, pede a bênção à mulher que se distancia. Num outro bloco, que sugere lonjura, de mármore travertino, em alto relevo, uma mulher jovem, os cabelos soprados pelo vento, faz um gesto de adeus com a mão direita. Ela está no meio do caminho entre os seus, de um lado, e uma madona dourada com o menino, que no mesmo bloco se situa no lado oposto da trajetória. A direção do vento no cabelo da jovem mulher indica que o alento dos mortos vem dos que ficam. Na fina sensibilidade dessa composição o artista representa a travessia como ato de amor.

Nas representações funerárias da arte de Emendábili não há ruptura. Antes, morte e vida se completam numa bela e imensa ternura, a arte proposta como liturgia da esperança.

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