Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

A 'casinha verde' de Fernando Meirelles

Na Vila Madalena, cineasta mantém um imóvel que é laboratório ecologicamente correto

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

12 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Numa ruazinha silenciosa em plena Vila Madalena, um portão de madeira plástica - material sintético feito com base em fraldas descartáveis usadas - esconde um charmoso sobradinho recém-reformado de quase 200 metros quadrados. É o refúgio paulistano de um casal que mora em um condomínio em Carapicuíba, na Grande São Paulo: a bailarina Ciça Teivelis, de 55 anos, ex-integrante do antigo Corpo de Baile do Teatro Municipal, e o cineasta Fernando Meirelles, de 61, um dos mais aclamados diretores de cinema do País.

O imóvel, originalmente erguido em 1986, foi totalmente reformado após a aquisição, no ano passado. Tudo para deixá-lo o mais ecologicamente correto possível. “Eu virei um ecochato”, admite Meirelles. “Procuro ser sustentável em tudo, compensar minha pegada de carbono (quantidade de dióxido de carbono que produzimos com nossas atividades diárias).” 

Para a reforma, que durou sete meses, o arquiteto Gui Paoliello, amigo de Meirelles desde os tempos de faculdade - foram colegas no curso de Arquitetura da Universidade de São Paulo (USP) -, encarregou-se de concretizar o discurso ecológico. “É uma questão ideológica que permeia a vida dele. Fizemos tudo de maneira a produzir o menor impacto possível no planeta”, diz Paoliello.

Três pequenas cisternas armazenam água da chuva - utilizada para limpeza, rega do jardim e descargas nos banheiros. Um sistema de placas transforma energia solar em elétrica - é o suficiente para todo o consumo da casa e o excedente é devolvido à rede. “Como está no mesmo CPF, geramos créditos que são abatidos da minha fatura de Carapicuíba. Lá antes eu pagava R$ 350 por mês de conta de luz; agora são R$ 80”, compara Meirelles, que investiu R$ 41 mil no sistema.

A casa da Vila Madalena também é equipada com placas solares que aquecem a água para o banho. No quintal, os pisos são totalmente permeáveis. “No fundo não faz a mínima diferença, porque quando chove a rua alaga do mesmo jeito. Mas pelo menos não jogo o ônus no sistema de esgoto da cidade”, diz o cineasta. 

Nas paredes da casa há muito vidro: durante o dia, é praticamente só iluminação natural. E, no deck, seis floreiras formam uma hortinha de temperos e chás. “Também procuramos aproveitar ao máximo as coisas já existentes no imóvel originalmente, como o telhado”, conta Paoliello.

“Precisamos adaptar a casa para nossa forma de uso”, ressalta Meirelles. “Como (também) sou arquiteto, e arquiteto não pensa só na casa, mas também no entorno, na cidade, eu quis fazer tudo da maneira mais sustentável possível. Um pouco como experimento de arquiteto que eu sou, né?”

Apoio. A casa paulistana era necessária para a rotina do casal, sobretudo depois que um imóvel que eles tinham na região da Lapa, também zona oeste, acabou ficando para a filha. “É uma base para a gente aqui em São Paulo”, afirma Meirelles. “Eu precisava de um lugar para ensaiar e ficar ao longo do dia entre um compromisso e outro”, diz Ciça. “E também queria um espaço alternativo e experimental para pequenas apresentações.”

Isso nem Meirelles nem Paoliello acreditavam muito que seria possível. De qualquer forma, a Casa Pelada - espaço batizado em referência a dois quadros de Xue Jiye, comprados em um leilão da massa falida do Banco Santos, que enfeitam a sala - estreou, já recebeu três semanas de apresentação, e logo terá nova temporada. “A Ciça conseguiu lotar de gente aqui”, comenta o cineasta. A plateia comporta 30 pessoas e a programação pode ser acompanhada pelo fb.com/casapelada. 

Apesar de estar em uso desde dezembro, Ciça conta que a casa ainda não ficou pronta como eles querem. As lâmpadas seguem sem lustres, como ela faz questão de apontar. Meirelles diz que a ideia é ter uma escrivaninha no mezanino, para que ele também possa trabalhar em seus projetos. Depois da reforma, Paoliello deixou o imóvel com quatro grandes cômodos: no térreo, uma sala-cozinha e o estúdio de ensaios e espetáculos da Ciça; um lance de escadas e há o mezanino de um lado, dois quartos do outro. 

Mesmo pronta para hospedar o casal, sua ocupação tem sido mais diurna do que noturna. Ciça dormiu ali umas cinco ou seis vezes. “Eu apenas uma. Gosto mesmo é de morar na minha casa”, diz o cineasta.

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