'A cada dia, País tem um massacre do Carandiru'

'A cada dia, País tem um massacre do Carandiru'

Em 2007, foram registrados 47,7 mil homicídios, o que representa 117 mortes a cada 24 horas e taxa de 25,2 por 100 mil habitantes

Lígia Formenti, O Estadao de S.Paulo

31 Março 2010 | 00h00

BRASÍLIA

Em 1992, durante a repressão à rebelião na Casa de Detenção do Carandiru, foram mortos 111 detentos. Quinze anos depois, em 2007, o Brasil registrou 47,7 mil assassinatos, o equivalente a uma média diária de 117 mortes. "Isso é mais do que um Carandiru por dia", resumiu o cientista político Júlio Jacobo, autor do estudo Mapa da Violência.

Os números do trabalho, que avalia a trajetória dos índices de homicídio no País entre 1997 e 2007, foram apresentados ontem, em São Paulo. A pesquisa demonstra que, na década, as taxas de assassinato ficaram praticamente inalteradas. Em 1997, foram registradas 25,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Em 2007, os números passaram para 25,2 por 100 mil habitantes.

Esses índices são resultado de dois movimentos distintos da violência no País no período. Até 2002, havia um crescimento no número de mortes, numa taxa média de 5% ao ano. Depois, as estatísticas começaram a cair. Entre 2003 e 2007, os índices apresentaram uma redução de 12,8%. A relação, que era de 28,9 mortes para cada 100 mil habitantes, passou para 25,2 por 100 mil.

Interiorização. Jacobo atribui a queda no último período analisado a dois fatores: Estatuto do Desarmamento e, principalmente, redução da mortalidade em grandes centros urbanos com grande peso demográfico e, portanto, grande influência nos números globais. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, houve uma redução de 58,6% entre 1997 e 2007. No Rio, a redução foi de 29,4%.

O comportamento dos números nos últimos cinco anos analisados, porém, está longe de sinalizar uma melhora do problema no País. Durante a década, morreram no Brasil 512 mil pessoas. Embora grandes cidades e regiões metropolitanas tenham apresentado uma queda nos índices de homicídios ? 19,8% e 25%, respectivamente ?, no interior dos Estados a situação é diferente. No período houve um aumento de 37,1% dos indicadores.

"Vivemos a interiorização da violência", constata Jacobo. Para o pesquisador, a mudança é reflexo da formação de novos polos econômicos e do aumento do contrabando nos municípios de fronteira. Também exercem pressão significativa as estatísticas de municípios localizados em áreas do Arco do Desmatamento, com atividades ilegais e grilagem de terras, e em áreas de turismo predatório, onde há aumento de consumo de bebidas e drogas. "A violência vai para onde vai o dinheiro e para onde há menos repressão", observa.

Explosão. Mesmo empurrando num primeiro momento as estatísticas para baixo, a interiorização da violência traz um problema a médio prazo. A forma de prevenção e combate ao problema deve obedecer às características de cada região. "A pulverização dos polos demanda respostas rápidas, mas diferenciadas." Jacobo destaca que no País não há um padrão único de comportamento da violência. Em alguns locais, como Pernambuco, Espírito Santo, Rondônia e Acre, houve uma estabilização das estatísticas e em outros, como Maranhão, Alagoas e Minas, foi registrado um aumento de 150% ou mais nos indicadores.

Paraná e Pará, que em 1997 apresentavam índices relativamente baixos, passaram a despertar a atenção pelos números. O Pará, por exemplo, saltou da 20.ª posição no ranking de maiores taxas de homicídio para 7.º lugar. O Paraná passou de 14.º para 9.º /

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