A arte de fazer pianos vai parar no museu

Exposição no Mube contará, na semana que vem, os 60 anos da Fritz Dobbert

Ana Bizzotto, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2010 | 00h00

 

Uma pequena placa ao lado do portão. Esse é o único indicativo do que há atrás dos muros brancos do número 5.028 da Avenida Raimundo Magalhães, em Pirituba, na zona norte de São Paulo. Quem passa por ali talvez não repare que no local funciona a Pianofatura Paulista, única fábrica de pianos da América Latina. Produtora do famoso Fritz Dobbert, nome pelo qual é conhecida, ela celebra 60 anos e terá sua história contada no Museu Brasileiro de Escultura (Mube).

 

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Com pianos de cauda e verticais e cerca de 30 cartazes com fotos, a exposição será aberta ao público de 13 a 16 deste mês. A mostra traz também folhetos e notas de jornais que retratam a trajetória da indústria e do instrumento no Brasil.

No dia 14, a dupla Mulheres Barbadas, formada pelos grafiteiros Henrique Lima e Julio Zukerman, vai customizar ao vivo um piano branco. "A intervenção da dupla dá um toque diferente à exposição. Não fica só aquela imagem sisuda geralmente associada ao piano", afirma o diretor administrativo da fábrica, Célio Bottura Júnior, filho de um dos fundadores.

Os grafiteiros, que admitem não saber nada de piano, ficaram animados com o convite. "Nunca desenhamos um instrumento musical", diz Julio. "Sempre inventamos o desenho na hora, improvisando. Com certeza vai rolar um friozinho na barriga para dar o primeiro traço, mas depois será bem legal."

Início. Fundada em 1950 pelo alemão Otto Halben e os irmãos Célio e Thyrso Bottura, numa época em que havia outros fabricantes no País, a fábrica recebeu primeiro o nome de Indústria de Pianos Halben. Começou fazendo só o modelo vertical, e seu primeiro protótipo ficou pronto em 1951. Cinco anos depois, a indústria se transferiu do Canindé, na zona leste, para Pirituba.

Naquele tempo, a linha de trem da CPTM era uma das poucas construções do entorno. "Onde hoje é o Terminal (Pirituba) era tudo terra", lembra o artesão Geraldo Bento de Lima, de 59 anos. Funcionário mais antigo da fábrica, ele começou com 14 anos, como aprendiz de marceneiro. "Quando entrei não sabia nada. Tem de ter muita precisão. Se errar mais de 2 milímetros dá problema", afirma Lima, que se emociona ao ver o piano pronto.

 

Mudanças. Em 1962, a Fritz Dobbert sofreu os estragos provocados por uma grande enchente. "Foi uma tragédia, perdemos 400 pianos. Funcionários, diretores, fornecedores, todo mundo se uniu para reerguer a fábrica", afirma Bottura. Em 1963, a empresa passou a fabricar também violões e outros instrumentos de corda.

Na década de 70, quando atingiu a produção de 180 unidades mensais, assumiu a liderança nacional dos fabricantes de pianos. "Tivemos 450 funcionários em dois turnos", lembra Bottura. Depois veio a crise provocada pela abertura de mercado na década de 90. "Sempre investimos na qualidade e visitamos feiras no exterior. Quando abriu o mercado, estávamos preparados. Mas muitas fábricas faliram."

Hoje, com 110 funcionários, a indústria que chegou a construir pianos de diversas marcas mantém a produção dos modelos Fritz Dobbert e importa pianos Kawai, além de produzir móveis. São cerca de mil pianos por ano e o trabalho continua a ser feito de forma artesanal, à mão, desde o corte da madeira até a afinação. Tudo para garantir a qualidade exigida pelos aguçados ouvidos de pianistas como Arthur Moreira Lima e André Mehmari.

"É um trabalho minucioso", afirma o afinador Edson Fernando Gonçalves, de 42 anos. Filho de um antigo afinador da fábrica, ele começou aos 14 - são, no mínimo, cinco anos para aprender o ofício. "Estudei piano oito meses só para poder conversar com o pianista."

A fabricação de cada piano leva de 60 a 70 dias e um modelo vertical custa de R$ 9 mil a R$ 15 mil. Já o de cauda inteira vale R$ 300 mil. A Fritz Dobbert também recebe visitas de escolas de música. Segundo Bottura, com a volta obrigatória da música ao currículo escolar - as escolas têm até agosto de 2011 para se adaptar -, o piano tende a ter novamente espaço no cotidiano dominado por TV, videogame e computador. "A demanda voltou a crescer."

QUEM FOI FRITZ DOBBERT

PROJETISTA DE PIANO

O alemão Fritz Wilhelm Ernest Otto Dobbert integrava a equipe que desenvolveu uma nova série de pianos para a Pianofatura Paulista, em 1958. Os modelos foram batizados com seu nome. A marca Fritz Dobbert foi lançada comercialmente no ano seguinte e se tornou a única a ser produzida pela fábrica. A série tinha três modelos verticais e um de cauda. O projetista vivia no Brasil e morreu há cerca de dez anos.

Serviços

* 60 ANOS DA FRITZ DOBBERT. MUSEU BRASILEIRO DA ESCULTURA (MUBE).

* AVENIDA EUROPA, 218, JARDIM EUROPA.

 

MAIS INFORMAÇÕES PODEM SER CONSEGUIDAS PELO TELEFONE (11) 2594-2601. DE 13 A 16 DE AGOSTO, DAS 11 ÀS 17 HORAS. GRÁTIS

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