A alfabetização deve começar na educação infantil?

Veja a opinião de dois especialistas ouvidos pela reportagem do 'Estado'

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2016 | 02h02

Reportagem do Estado desta segunda-feira, 25, mostrou que colégios particulares têm estimulado a alfabetização precoce, antes mesmo do 1º ano do ensino fundamental. A prática é saudável? Veja a opinião de dois especialistas. 

SIM - Magda Soares Becker

É que não se trata de "incluir" a alfabetização na educação infantil, uma vez que a criança já chega a ela em processo de alfabetização. Crianças de sociedades como a nossa, muito centradas na escrita, já iniciam seu processo de alfabetização e letramento antes mesmo de chegar às instituições de ensino formal.

Assim, cabe à educação infantil dar continuidade, agora de forma sistemática e consciente, a um processo já iniciado naturalmente. Nesta perspectiva, a alfabetização deve estar presente na educação infantil, a não ser que se queira interromper um processo já em desenvolvimento, o que não seria pedagógico, psicológico e, sobretudo, não seria justo com as crianças.

Há uma concepção equivocada, que vem das atividades que eram feitas no passado, na alfabetização particularmente, de que aprender a ler é um processo penoso, repetitivo, desinteressante. Hoje, o avanço das ciências cognitivas e linguísticas trouxe a compreensão do processo de aprendizagem da língua escrita, de sua relação com o desenvolvimento da criança, o que resultou em uma nova concepção da pedagogia da alfabetização que evidencia que essa aprendizagem pode ser lúdica. Não há pressão sobre as crianças, ao contrário, há atendimento aos interesses e desejos delas.

É PROFESSORA EMÉRITA DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)

NÃO - Luiz Carlos de Freitas

A antecipação da escolarização, em alguns casos até mesmo para antes da pré-escola, é um desserviço ao desenvolvimento das crianças. Tem se difundido a ideia de que existiria uma "fase" na qual as crianças precisariam ser "exercitadas" para desenvolver o cérebro, pois logo em seguida não haveria mais essa possibilidade, já que cessaria seu desenvolvimento.

São ideias falsas que reproduzem interesses econômicos por criar um mercado educacional e jogar os pais na corrida pela aquisição de sistemas de aprendizagem virtuais que têm rendido milhões de dólares ao redor do mundo, mas que não ajudam, ao contrário, implicam em riscos para o desenvolvimento saudável das crianças.

A neurociência avançou muito em seu conhecimento básico, mas não sabemos ainda exatamente como converter tais avanços em sistemas de aprendizagem eficazes e seguros.

É mais saudável que nossas crianças se desenvolvam em seu ritmo natural, sem tentarmos acelerá-las, usando o melhor dos métodos de aprendizagem que os pais podem, sem custos, colocar em prática: a atenção. Não se deve terceirizar o desenvolvimento das crianças para tablets e "softwares" em DVDs.

É PROFESSOR DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP) E ESPECIALISTA NA ÁREA DE AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

 

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