'A aids não é uma doença superada', diz Nobel

Cientista que descobriu o HIV há 30 anos fala sobre qualidade de vida e perspectivas de uma cura definitiva

Entrevista com

ANDREI NETTO / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2013 | 02h02

Françoise Barré-Sinoussi tinha 35 anos quando, ao lado do também virologista Jean-Claude Chermann e sob a direção de Luc Montagnier, realizou uma descoberta que mudaria para sempre a história da Medicina e a vida de milhões de pessoas em todo o mundo: o HIV, vírus causador da aids.

Na segunda-feira passada, dia 20, o feito científico realizado no Instituto Pasteur, em Paris, que rendeu à pesquisadora o Prêmio Nobel de Medicina de 2008, completou 30 anos. Em entrevista ao Estado, Françoise faz um balanço das três décadas em que a doença desafia a ciência. No período, pesquisadores do mundo inteiro saíram da estaca zero e obtiveram avanços concretos como o AZT, medicamento que evitou a transmissão do vírus da mãe ao bebê em 1994, e o coquetel antirretroviral, criado em 1996, que reduziu a mortalidade dos pacientes em 85%.

A aids, porém, continua uma ameaça. Transformada em doença crônica em países desenvolvidos, mata em massa nas regiões pobres. Para Françoise, deve-se se esclarecer: a aids não foi superada nem o HIV, vencido. "Ainda morre-se muito de aids", diz a pesquisadora, que considera países como o Camboja - e não o Brasil - exemplo mundial no combate à doença.

Que balanço a senhora faz desses 30 anos de combate à aids?

Os maiores avanços nesses 30 primeiros anos são, em primeiro lugar, o desenvolvimento de testes de diagnóstico cada vez mais eficientes - hoje podemos até fazê-los em casa, embora com necessidade de acompanhamento. Em segundo lugar, o tratamento, que traz benefícios imensos ao paciente. Hoje, nos países ricos podemos falar da aids como uma doença crônica. Nos países pobres, infelizmente, mesmo com os progressos, mais de 50% dos pacientes não têm acesso ao tratamento. Por fim, além desses dois avanços, há o fato de que o tratamento hoje serve também como prevenção.

Esse é um ponto importante: o tratamento é eficiente e também serve para a prevenção. Essa é uma esperança, não?

Sim, o tratamento se provou muito eficiente, por exemplo, no caso da transmissão da mãe ao filho, por ser capaz de prevenir a infecção na criança. Hoje sabemos também que as pessoas infectadas e em tratamento transmitem o vírus apenas em casos raros. Se os portadores do HIV forem tratados em tempo, podemos reduzir em mais de 95% o risco de infecção dos parceiros. É uma conquista importante. Outra é o desenvolvimento do tratamento como prevenção. Tanto o gel microbicida para mulheres quanto a ingestão de medicamento, ambos antes da relação sexual, podem evitar a infecção. Houve muitos progressos em termos de tratamento e de prevenção em 30 anos.

Mas não é uma luta vencida, certo?

Não, a aids não é uma doença superada. Ainda se morre muito de aids, em especial em países pobres, mas também em ricos, como a França. Na média mundial, entre 50% e 60% das pessoas infectadas com HIV portam o vírus sem saber. Quando eles chegam doentes, são atendidos já muito tarde. Logo, um dos desafios de hoje é o exame de detecção, e a mídia tem um papel fundamental de incitar o público a fazer o exame para, em caso positivo, se tratar o mais rápido possível.

Há alguns anos países como o Brasil não fazem mais campanhas de massa para a realização desses exames porque não têm condições de atender todos os eventuais pacientes. Essa

situação mudou?

Creio que a situação esteja evoluindo no mundo inteiro. O Brasil segue ou vai seguir essa tendência. Os Estados Unidos falam em propor sistematicamente o teste HIV, e o mesmo acontece na França. Há um teste hoje que se pode fazer como se faz um de gravidez. Nos EUA, ele já foi aprovado. Na França, o Conselho Nacional de Aids o aprovou, mas com a condição de um acompanhamento por telefone. Afinal, não é o mesmo de fazer um teste de gravidez.

A senhora evocou nesta semana a perspectiva de uma geração livre da aids, assim como tivemos uma sob esse risco. Essa hipótese é plausível?

Em princípio, sim. Se fosse possível chegar a todas as pessoas portadoras do vírus em todo o mundo e as colocássemos sob tratamento, veríamos a epidemia decrescer de forma progressiva até chegarmos a uma geração livre da aids em 2050. Há modelos matemáticos que o mostraram, e esse é o sonho que devemos perseguir. Mas, na realidade, é dificílimo localizar todos os portadores de HIV, em especial em zonas rurais. Na prática, o que podemos fazer de mais concreto é fazer a epidemia recuar com o acesso correto ao tratamento.

O tratamento também precisa ser desenvolvido?

Nos primeiros 30 anos desenvolvemos várias ferramentas para lutar contra o HIV, o que nos deu tempo de pensar em como será o combate à doença no futuro. O fato é que ainda precisamos de muita pesquisa. Tudo parte dela para termos a estratégia terapêutica de amanhã ou a vacina ou ainda novos mecanismos de prevenção. Não é simples: enfrentamos um vírus muito complexo e muito variável, que escapa de tratamentos e da defesa imunológica. A pesquisa custa caro, e estamos em uma situação de crise internacional. Ainda assim, não podemos desistir. Ao contrário, é preciso que remobilizemos a comunidade internacional para desenvolver essas novas ferramentas.

A qualidade de vida dos pacientes é o desafio mais urgente? Quais são as perspectivas de avanço nos próximos dez anos?

Nos próximo dez anos, a perspectiva é melhorar a qualidade de vida e permitir que eles interrompam o tratamento, o que evitaria também as complicações de longo prazo. Há um pequeno porcentual de pacientes, em torno de 10%, que no longo prazo desenvolvem complicações graves, como câncer e doenças cardiovasculares ou ligadas ao envelhecimento precoce. Isso nos mostra que precisamos de estratégias terapêuticas menos pesadas.

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