Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

''A Academia é da sociedade paulista''

Advogado toma posse hoje com o objetivo de digitalizar o acervo de mais de 100 mil volumes e colocá-lo na internet

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2011 | 00h00

Antonio Penteado Mendonça, novo presidente da Academia Paulista de Letras

Eleito com 32 votos em dezembro, assume hoje a presidência da Academia Paulista de Letras (APL) o advogado e cronista Antonio Penteado Mendonça, de 58 anos, colaborador do Estado. "Serei uma continuação do (desembargador José Renato) Nalini", diz, em referência a seu antecessor por dois mandatos, nos quais foi secretário. Autor dos livros Crônica da Cidade e O Toque do Verde, entre outros - além de 4,5 mil crônicas levadas ao ar desde 1992 pela Rádio Eldorado, do Grupo Estado -, ele recebeu a reportagem em seu escritório, no Pacaembu.

Para que serve, afinal, a APL?

No século 21, a Academia só tem sentido se conseguir se transformar em uma ferramenta promotora de cultura e educação. E é isso que vamos fazer. A Academia não é de nenhum acadêmico; ela é da sociedade paulista. Infelizmente, ainda encontramos vozes dissonantes lá dentro, que gostariam de continuar ganhando seu jetonzinho, ficar bebendo Coca-Cola e chazinho às 5 da tarde antes das sessões, sem fazer nada de útil para a sociedade.

São muitos esses opositores?

Vozes dissonantes na Academia são quatro. E eu lhe dou os nomes: (o poeta) Mário Chamie, (o professor universitário e tradutor) Erwin Theodor (Rosenthal), (a professora universitária) Myriam (Ellis) e (o também professor universitário) Massaud Moisés. E quatro em 40 é algo absolutamente insignificante.

Quais são esses planos?

Vamos dar continuidade ao processo iniciado três gestões anteriores (no biênio 2005-2006, sob a presidência do jurista Ives Gandra da Silva Martins), de abrir as portas da Academia. Quando o Nalini assumiu, a ideia já estava consolidada, com focos e objetivos. Mas aí aconteceu uma tragédia, o desmoronamento de nosso teatro, que ao mesmo tempo foi a nossa sorte.

Como assim "sorte"?

Porque começamos a batalhar dinheiro para a reforma da Academia. Conseguimos as verbas que nos permitiram fazer o restauro completo da sede.

E quais são os principais projetos para o seu mandato?

Este é o terceiro ano de um prêmio que se chama O Escritor na Escola. Serão cem escolas públicas de todo o Estado, ou seja, 150 mil alunos. Os três melhores contos, poemas e crônicas serão publicados em livro. E vamos produzir DVDs com entrevistas de grandes acadêmicos como Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão e Paulo Bomfim. E pretendemos digitalizar nossa biblioteca.

E como estão viabilizando?

Será por meio de uma parceria com uma universidade. Ainda estamos negociando. São mais de 100 mil volumes, com muitas primeiras edições. Digitalizado, o acervo ficará aberto para toda a população, que poderá consultar pela internet.

Como estão as finanças?

Nossa principal renda é o aluguel do prédio (os 13 andares do edifício-sede que são locados à Secretaria de Estado da Educação por R$ 53 mil ao mês). Os jetons (pagamentos por comparecimento às sessões semanais, de R$ 300) continuam suspensos desde 2010. E não há previsão para que voltem. Enquanto não conseguirmos mais receita, seria uma irresponsabilidade.

E há ideias de novas fontes de renda?

Com a reforma de nosso espaço, pretendemos alugá-lo para eventos. Nosso teatro pode ser usado para promover espetáculos e arrecadar dinheiro.

O espaço poderá ser alugado para qualquer tipo de evento?

Sim. Nós não podemos confundir. Uma coisa é a Academia. Outra são as fontes de receita e como ela será usada. Eu não posso negar o espaço a quem quer que seja. Seria um irresponsável se deixasse de alugar.

A localização da APL, no meio ao degradado Largo do Arouche, não é um problema?

É uma região deteriorada. Que pode ser recuperada, por meio de um projeto de reurbanização da Prefeitura, e se transformar em um dos mais bonitos endereços de São Paulo. Basta um projeto sério e aquela área em nada vai ficar devendo ao lugar mais bonito de Paris ou de Londres. O problema é que o entorno está estragado. Mas a Academia pode ser parte de um processo de mudança.

De que forma o senhor vê o fato de muitos acadêmicos não serem escritores - ao menos não como atividade principal?

Não somos uma academia de literatura. Somos uma academia de letras, ou seja, uma academia de quem lida com a letra. E também uma academia que homenageia grandes personalidades públicas, que não precisam escrever absolutamente nada. O estatuto não fala em escritores e entre os nossos 40 tem de tudo. Por isso, acho a Academia a mais representativa da diversidade da cultura brasileira. E é isso que queremos passar à sociedade: a capacidade intelectual de nossos integrantes, os mais de 100 anos de experiência e a biblioteca com 100 mil volumes são nossos ativos.

REAÇÕES

Myriam Ellis

Titular da cadeira 13

"É outra mentalidade a dessa geração que tomou conta da Academia. A tradição vem sendo modificada, a instituição está descaracterizada"

Mário Chamie

Titular da cadeira 26

"Ultimamente não tenho frequentado a Academia e estou alheio a esse assunto"

Erwin Theodor Rosenthal

Titular da cadeira 19

"Eu ficaria constrangido em falar tudo o que penso (da atual gestão), porque é algo interno da Academia. Não acho correto tornar públicas tais questões"

Massaud Moisés

Titular da cadeira 17

"Ele (o novo presidente) já tem opinião formada, então eu me abstenho de julgar qualquer coisa. O que acontece é que estou afastado há meses, por razões de saúde"

PONTOS-CHAVE

História e tradição

Fundada em 1909, a Academia Paulista de Letras (APL) tem 40 vagas. Suas reuniões ocorrem sempre às quintas-feiras, na sede da instituição, no Largo do Arouche. São precedidas por um chá da tarde - no qual são servidos salgadinhos, bolos, frutas, sucos e, caso alguém queira, cerveja ou uísque.

Abertura

Durante os dois mandatos do presidente José Renato Nalini, a APL abriu as portas para a sociedade. A maioria dos acadêmicos aprovou as mudanças e Nalini não teve dificuldade em fazer seu sucessor.

Por mais renda

Com a reforma do teatro, a atual gestão espera conseguir alugá-lo. A ideia é aumentar a renda da APL - cujo mau momento impede até o pagamento dos jetons aos acadêmicos.

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