9 em cada 10 estudantes de Medicina da USP já sofreram algum tipo de agressão, diz estudo

O levantamento, coordenado por uma professora do Departamento de Medicina Preventiva, foi feito entre 317 alunos da instituição

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 18h32

SÃO PAULO - Estudo realizado com alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Fmusp) constatou que 9 a cada 10 estudantes já passaram por algum tipo de agressão ao longo de sua formação. Os casos vão desde agressões verbais a assédio ou discriminação sexual e compõem um estudo sobre a qualidade das  relações no ambiente acadêmico no curso de medicina.

O levantamento, coordenado pela professora Maria Fernanda Tourinho Peres, do Departamento de Medicina Preventiva, foi feito em um universo de 317 alunos (cerca de 25% do total) por meio de um formulário divulgado aos graduandos do 1º ao 6º ano, por e-mail. 

Parte dos dados do estudo foram relatados durante audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura os casos de violência nas universidades paulistas. Além de Maria Fernanda, estiveram presentes a professora de antropologia Heloísa Buarque, do USP Diversidade, o psiquiatra e ex-aluno da Fmusp Luís Fernando Toffoli e o médico Paulo Saldiva.

Do total, 43,32% dos entrevistados disseram ter sido submetidos a assédio ou discriminação sexual e 15,52% relataram sofrer ameaças de agressões físicas. A agressão verbal (gritos ou xingamentos) também foi levada em consideração no estudo (59,99%) As respostas foram dadas anonimamente e não era necessário informar nenhum dado pessoal. 

De acordo com o levantamento, o agressor é, na maior parte das vezes (83,75%), outro estudante de medicina. Em segundo lugar, a reclamação é em relação aos professores (72,78), médicos (50,3%), residentes (44,12%), além de pacientes, acompanhantes, enfermeiros e outros profissionais da saúde.

A agressão psicológica foi a que teve maior número de registros, na forma de depreciação ou humilhação (73,1%). Agressões físicas como tapas, chutes ou empurrões tiveram 38 registros (13,11%). A maioria dos estudantes (69,38%) considerou a gravidade da agressão como "muito importante (202 pessoas), ante 90 alunos que julgaram que os casos tiveram pouca ou nenhuma relevância.

De acordo com Maria Fernanda, a intenção da pesquisa era explorar um campo pouco estudado no Brasil, já que os estudos sobre violência na educação estão quase sempre voltados ao ensino básico e não à educação superior. "Há uma grande produção internacional sobre os casos de humilhações, maus tratos e abusos nas universidades. A proporção é muito grande em escolas médicas", disse. O projeto Quara, como foi chamado, foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição e teve o trabalho de campo realizado em 2013. Segundo a docente, os números foram semelhantes aos obtidos em pesquisas feitas em países como EUA,  Alemanha e Chile.

A direção da Fmusp afirmou que tem conhecimento do estudo que vai utilizar os resultados 'como instrumento para o aperfeiçoamento das diversas ações em defesa dos direitos humanos que estão sendo implementados na instituição". Desde novembro do ano passado, a instituição tem apresentado alternativas de combate às agressões, como a criação de uma ouvidoria própria, além de um centro de direitos humanos com assistência psicológica às vítimas de abusos.

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