Fernando Gabeira/AE
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770 encostas ainda precisam de obras

Região serrana do Rio vive crise política, enquanto ocupação irregular continua a acontecer, apesar do medo da próxima temporada de chuva

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2011 | 00h00

Sede da Olimpíada de 2016, o Rio já aposta corrida com a primavera de 2011. Cem dias depois da maior tragédia natural do País, com 906 mortos e 400 desaparecidos, a limpeza dos pontos atingidos na região serrana ainda não se completou e o processo articulado de reconstrução não começou. Segundo a Empresa de Obras Públicas (Emop), 770 encostas precisam de obras, em um esforço orçado em R$ 3,3 bilhões. Sem contar os rios que saíram do curso e os que estão muito rasos, esperando dragagem. Em setembro, começa de novo a chover, o que dificultará o trabalho, em uma área já vulnerável.

A tragédia e suas consequências desencadearam uma crise política nas principais cidades da serra. Em Friburgo, o prefeito de 85 anos desapareceu de cena, desde quando sofreu um acidente na Suíça. O vice-prefeito, Demerval Barbosa Neto, atua no seu lugar mas não suportou a pressão e tirou umas curtas férias nos Estados Unidos. Em Teresópolis, a tensão ficou mais alta ainda quando vários setores da sociedade iniciaram um movimento pedindo a renúncia do prefeito Jorge Mário Sedelacek, até mesmo com manifestações de rua. O prefeito é acusado de incompetência, licitações irregulares e enriquecimento ilícito. Ele é do PT mas o próprio deputado do partido em Teresópolis, Nílton Salomão, também critica sua performance.

Em muitos lugares, como em Córrego Dantas, Nova Friburgo, a população decidiu limpar o bairro por meio de mutirões. Dois meses e meio de trabalho acabaram sendo um argumento para convencer o governo a trazer as máquinas.

Resistentes. Uma moradora de Córrego Dantas, Dilma Nepomuceno Silva resiste em sua casa, com quatro netos e um filho. Aos 65 anos, deixou seu emprego em uma empresa para cuidar apenas da família. Seu problema: o elo entre a casa e a rua depende de uma improvisada escada de madeira que já a derrubou uma vez.

Em um bairro atingido em Friburgo, Duas Pedras, um prédio de dois andares caiu há um mês e continua virado na rua. Moradores picharam a fachada com expressões como "alugo sem fiador, este lado para cima".

Em Teresópolis, o bairro de Campo Grande apresenta hoje recuperação nas casas em que moradores têm recursos. As muitas toneladas de pedras que caíram ainda não foram retiradas. Os moradores contrataram dois irmãos, Neném e Beto das Pedras, para fazerem o trabalho. Nem dez gerações da família conseguirão realizar isto.

Tanto algumas pontes como a própria limpeza estão sendo realizadas pelos moradores. A dona do sítio Araponga, Rita Ferreira de Lima, até hoje tenta abrir caminho nas pedras que sepultaram a vizinhança. Até agora, ela recuperou a piscina que depois da tragédia estava cheia de lama.

"Vivemos ainda no dia 12. Acordamos com medo", afirmou a tradutora Natália Cristina da Silva, que vive no bairro de Duas Pedras, em Friburgo. O problema é que a limpeza incompleta e os destroços contribuem para o avanço da dengue. Em apenas duas horas, Natália presenciou 40 pedidos de exame de sangue no Hospital Raul Sertã.

No Vale do Cuiabá, em Itaipava, a limpeza está mais adiantada, mas ainda há móveis na rua e as casas dos mais pobres foram abandonadas. Nas áreas mais ricas, o Vale abriga pousadas e haras de cavalos de corrida, como o da Boa Esperança.

De um ponto de vista ambiental, as encostas, 770 delas, apresentam problemas. A reconstrução precisa ser feita com rapidez, pois além das chuvas, que podem voltar na primavera, ocupações irregulares continuam acontecendo.

"O medo que temos", afirma o presidente da CPI, deputado Luis Paulo Correa da Rocha, "é o de a situação se tornar incontrolável no futuro."

O outro problema são os rios. Um morador de uma casa semidestruída no Vale do Cuiabá, José Pinto, afirmou que o Rio Santo Antônio estava muito raso e isso virou um problema com qualquer chuva. Há ainda o problema das pontes. Até agora não foi concluído o trabalho de mapeamento e definição do calendário de obras.

Em andamento. No campo social, há duas iniciativas. Uma delas é a de pagar aluguel social para 6 mil pessoas, conforme o governo prometeu. Mas os cadastramentos são lentos e confusos. Muita gente não se sente contemplada porque em certas áreas, como no Vale do Cuiabá, não há casas de R$ 500 para alugar.

A outra iniciativa é construir casas para 7 mil famílias. O projeto será conduzido pelo vice-governador Luiz Fernando Pezão. Ele comandou os trabalhos de emergência, é acessível e trabalha muito. Mas, em condições normais, a Secretaria de Habitação, e não a de Obras, dirigida por Pezão, é que realizaria o trabalho. Ele é o candidato de Cabral ao governo do Rio, em 2014.

A reconstrução econômica da serra fluminense depende de um projeto que segundo o secretário de Desenvolvimento, Júlio Bueno, será financiado pela Petrobrás. Com esse projeto na mão, será possível definir objetivos e calendários. No fim do ano, novas chuvas podem vir e acabar transformando o trabalho incipiente em um esforço de Sísifo. O herói grego colocava uma pedra no alto da montanha e ela rolava. Aqui rolam toneladas.

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