77 milhões têm medo de andar na rua

Pesquisa do IBGE mostra que quase metade da população se sente insegura e essa sensação cresce conforme a pessoa se afasta de casa

Felipe Werneck e Luciana Nunes Leal, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2010 | 00h00

Quase metade (47,2%) da população com 10 anos ou mais de idade se sente insegura nas cidades onde vive, indica o estudo Características da Vitimização e do Acesso à Justiça, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de 2009. São 77 milhões de pessoas com medo de andar pelas ruas.

É o caso do técnico de vôlei Luiz Simões de Oliveira Neto, de 47 anos (foto). Sempre que pode, ele avança à noite o sinal vermelho da Rua Alfonso Bovero, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Isso desde que sofreu um sequestro relâmpago, há dez meses. "Prefiro levar uma multa a passar novamente pelo que eu passei." Segundo o IBGE, 49% dos paulistas se sentem inseguros nas suas cidades.

A pesquisa mostra que a sensação de insegurança aumenta conforme a população se afasta do local onde mora. Mesmo em casa, um em cada cinco brasileiros (21,4%) se sente inseguro. Nos bairros de residência, a proporção é quase de 1 para 3 (32,9%).

É a primeira vez que o IBGE investiga a sensação de segurança da população, aproveitando a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Também foi realizado um perfil socioeconômico de vítimas de crimes como roubo, furto e agressão - como já havia sido feito em 1988.

O IBGE não aponta causas para a violência. "Agora vamos partir para tentar entender melhor os motivos da sensação de insegurança", diz o pesquisador Cimar Azeredo, responsável pelo estudo. Segundo ele, os números constatam que deve haver políticas para melhorar a segurança pública.

O cientista político Guaracy Mingardi, que trabalhou para o Ministério da Justiça numa pesquisa nacional sobre vitimização, que deverá ser concluída no início de 2011, ressalta que os fatores que levam à sensação de insegurança não têm necessariamente a ver com criminalidade. Como exemplo, ele cita locais apontados como perigosos que nem sempre são os mais violentos. "Sentir-se seguro ou não depende de vários fatores, até mesmo da mídia. E também se deve ao fato de termos grau de criminalidade alto", diz Mingardi.

Segundo o IBGE, o Estado do Pará apresentou o maior porcentual de insegurança. Lá, só 36,9% se sentiam seguros. Em seguida vêm Rio (42,3%) e Distrito Federal (43%). A situação nas regiões metropolitanas é ainda pior. No caso do entorno de Belém, apenas 14,6% se sentiam seguros. Não é o caso, por exemplo, do mototaxista Álvaro Souza Pinho, de 32 anos, assaltado quatro vezes em Belém só em outubro e novembro. "Agora, só saio de casa para trabalhar."

Os menores porcentuais de sensação de segurança foram registrados na Região Norte: 71,6% no domicílio, 59,8% no bairro e 48,2% na cidade. Já a Região Sul apresentou as maiores proporções de sentimento de segurança: 81,9%, 72,6% e 60,5%, respectivamente.

Renda. O estudo indica ainda que quanto maior é a renda das famílias maior é a sensação de segurança nos domicílios. Já para os bairros e as cidades, a relação se inverte, com maior segurança entre as famílias com menores rendimentos. Moradores de áreas rurais se sentem mais seguros. Além disso, os homens se declararam mais seguros que as mulheres. /COLABOROU YÁSKARA CAVALCANTE, ESPECIAL PARA O ESTADO

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