75 estão em estado grave; pneumonia química é outra grande preocupação

Doença pode se manifestar até três dias após inalação de fumaça e, se não for tratada, é fatal; principais sintomas são tosse e falta de ar

CAIO DO VALLE , ELDER OGLIARI, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2013 | 02h03

Setenta e cinco pessoas estão internadas em estado "gravíssimo", a maioria respirando por ventiladores mecânicos, em Unidades de Terapia Intensiva de hospitais de Santa Maria e Porto Alegre. Muitos internados tiveram intoxicação respiratória. E o prognóstico é preocupante. "São pacientes em estado crítico, que correm risco de vida", disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

E a tragédia ainda pode levar a novas internações médicas. São pessoas que tragaram a fumaça do incêndio na boate e não desenvolveram imediatamente sintomas de intoxicação respiratória. Especialistas explicam que a chamada pneumonia química pode se manifestar até três dias depois da inalação. No domingo, 24 pessoas suspeitas de estar com o problema foram atendidas no pronto-socorro do município. Ontem, houve mais dois casos.

Padilha já havia alertado para o risco de casos assim no domingo à tarde. Tosse, falta de ar e até mesmo catarro frequente, acompanhado ou não de restos da fuligem inalada, caracterizam algumas das reações do corpo ao desenvolvimento da moléstia que, se não for tratada, pode até mesmo levar à morte, de acordo com os especialistas.

O cirurgião Luiz Philipe Molina, do Centro de Referência em Trauma do Hospital 9 de Julho, de São Paulo, compara a pneumonia química à formação de bolhas nas mãos após queimaduras em panelas ao fogo.

"Nesses casos, a pele fica vermelha na hora. Um tempo depois, começam a surgir bolhas que, após uns dias, estouram. Nas mucosas respiratórias, o processo é parecido."

Segundo ele, os tecidos internos lesionados pelo contato com o ar quente podem descamar. "As células que foram atingidas acabam sendo eliminadas, impedindo o bom funcionamento dos pulmões." Isso dificulta a transmissão de oxigênio dos alvéolos pulmonares para a corrente sanguínea.

A descamação favorece infecções secundárias. Outro sintoma decorrente desse problema são dor de cabeça e tonturas.

A desidratação dos tecidos também pode ocorrer, segundo Ubiratan de Paula Santos, diretor da Sociedade Paulista de Pneumologia e pneumologista do Instituto do Coração. "Devemos notar que, nessas circunstâncias, a pessoa respira gases e partículas em alta temperatura, o que provoca uma agressão térmica ao revestimento de traqueia, laringe e brônquios."

Um dos jovens que ajudaram a quebrar as paredes da casa noturna, Guilherme Luz, de 25 anos, teve de ser internado horas depois, com suspeita de pneumonia química. Ele teve queimadura nas vias aéreas, mas os sintomas se agravaram na tarde de domingo. Seu estado de saúde ontem era estável, segundo o hospital onde estava sendo tratado, em Santa Catarina, onde mora.

A estudante Ingrid Goldani, que estava na boate Kiss quando começou o fogo, também começou a se sentir mal na tarde de domingo. Ela havia escapado do incêndio aparentemente ilesa, mas manifestou os sintomas horas depois do acidente. Acabou sendo transferida ontem de madrugada para um hospital de Porto Alegre.

As autoridades recomendam que, diante de qualquer sintoma - como tosse, início de catarros ou falta de ar, por exemplo -, as pessoas que estavam na boate e inalaram fumaça tóxica procurem atendimento médico imediatamente.

Gêmeos. Entre o pacientes em estado grave estão os gêmeos Emanuel e Guilherme Almeida Pastl. Eles quiseram comemorar com antecedência o aniversário de 19 anos na boate Kiss. Hoje, data exata do aniversário dos jovens, ambos estão na UTI do Hospital Universitário Ulbra-Mãe de Deus, em Canoas, cidade natal deles. / COLABOROU LUÍS BISSIGO, AGÊNCIA RBS

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