70 anos e 22 filhos na Rocinha, a maior do País

Aposentada é o retrato da maioria dos moradores da comunidade

Sabrina Valle e Luciana Leal, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2011 | 03h02

Se fosse uma cidade, a Rocinha seria mais populosa do que 5.135 dos 5.565 municípios brasileiros. No Estado do Rio, seria a 35.ª entre 92 cidades. Com 69.161 moradores, passou de pequena comunidade, no início dos anos 1950, à maior favela do País, segundo dados divulgados na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010.

Em 2012, Terezinha Pereira Barbosa completa 70 anos de Rocinha. Aos 84, ela resume a história de muitos que vivem na maior favela brasileira. Terezinha é negra, migrante, com pouco estudo e não tem saneamento básico adequado - carência que causou a morte da maioria de seus 22 filhos. Apenas seis estão vivos. "Nascia e morria. Cuidava deles, mas não adiantava, a água era de poço", lamenta ela, lúcida e ativa.

Dois filhos, adultos, ainda moram com a aposentada em um cortiço de cimento batido na favela, uma comunidade que ao longo da vida de Terezinha se agigantou morro acima no bairro nobre de São Conrado, na zona sul do Rio. Na Rocinha, a média é essa: três habitantes por lar. Mas, enquanto alguns vizinhos moram em boas casas de alvenaria ou em prédios bem estruturados com vista para o mar, a residência de Terezinha se resume a um quarto de 9 m² e um pequeno banheiro. É um dos 14% de lares na Rocinha que, segundo a pesquisa, têm coleta de esgoto inadequada.

O espaço é suficiente apenas para uma cômoda que equilibra objetos pessoais, duas TVs empilhadas e um aparelho de som. Ao lado e na frente ficam duas camas de solteiro, sobre as quais ela e um dos filhos acomodam as roupas e dormem. O segundo filho dorme em um colchonete. Armário, não há. Cozinha, também não. Para fazer comida, Terezinha usa a água da pia do banheiro e um pequeno fogão. "Isso quando tem, porque falta água o tempo inteiro." Ela mora em um dos 15% de domicílios que recebem luz clandestinamente.

Essa é a quarta casa onde mora na Rocinha, sempre na parte mais baixa do morro. De longe, é a pior e a menor delas, diz Terezinha, que trabalhou como babá ou em orfanatos. O trajeto é longo e íngreme para uma idosa. Em uma das quatro residências morou com o pai dos 22 filhos, com quem nunca se casou. "Ficamos juntos 29 anos e ele me deixou por outra mulher", fala sobre o ex-companheiro, já morto.

Terezinha diz que a Rocinha que conheceu quando chegou de Santa Luzia (MG) com os pais era bem diferente do emaranhado de pessoas que é hoje. "Era tudo mato, não tinha nada."

Divergência. A Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Barcelos (Amabb) contesta a informação do IBGE de que a Rocinha tem 69.161o moradores. O secretário da Amabb, Antonio Golgenstein, calcula que sejam entre 180 mil e 200 mil habitantes, mas a estimativa é informal.

A cada mês, a Amabb concede centenas de regularizações de domicílio a moradores. Não é o caso de Terezinha, que não tem casa própria e paga R$ 250 de aluguel pelo espaço com os R$ 545 que ganha do Estado de pensão.

Diferenças. Ao contrário de São Paulo, que tem favelas menores espalhadas principalmente pela periferia, o Rio concentra comunidades maiores. "Grandes aglomerações baixam a qualidade de vida. Internamente, têm problemas na areação e na circulação interna, especulação imobiliária, tendência de eliminação das áreas coletivas. No entorno, trazem poluição, problemas de transporte, aumento da percepção de violência", diz o professor da PUC-RJ Marcelo Burgos, especialista em urbanismo.

Ele sustenta, no entanto, que é possível diminuir o adensamento nas favelas. "E isso não significa remoção, mas, por exemplo, construir prédios com elevadores. Você pode reduzir uma rua inteira construindo um prédio."

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