7 meses após ataque em livraria, designer está em estado grave

Em coma, ele é o paciente mais antigo da UTI de Traumas do HC; na 2ª, passou pela quarta cirurgia

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

Há sete meses, o designer Henrique de Carvalho Pereira, de 22 anos, entrava na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, nos Jardins, zona sul, para fazer uma pesquisa. Agachado, com um livro de culinária no colo, ele parecia compenetrado, prestes a virar a próxima página - quando foi golpeado na cabeça com um taco de beisebol pelo personal trainer Alessandre Fernando Aleixo, de 38 anos. Hoje, "Rique", filho de Elifas e Silvania Pereira, continua em coma, respirando com ajuda de aparelhos, em estado grave.

Henrique é o paciente mais antigo da Unidade de Terapia Intensiva do setor de traumas do Hospital das Clínicas, na zona oeste. Em maio, emocionou familiares ao reagir a estímulos ("Beija a mão da mãe, Rique", dizia Silvania, se aproximando do jovem, e Rique, em estado de consciência mínima, ensaiava um biquinho). Mas, no início do mês, piorou novamente. A hidrocefalia voltara, e os médicos tiveram de fazer outra cirurgia - a quarta até aqui -, dessa vez para instalar uma válvula de drenagem no lado direito do crânio. Realizado na segunda, o procedimento foi bem-sucedido.

"Procedimento", "consciência mínima", "coma" - palavras agora incorporadas ao vocabulário da família Pereira, que vive em Santo André, num apartamento de classe média. Há 215 dias, pai, mãe e irmão caçula se revezam nas visitas ao jovem. "Estamos esperançosos que ele volte a reagir, já que foi depois de uma cirurgia como essa que ele deu as primeiras respostas aos estímulos", disse o pai, o administrador Elifas Pereira Filho, de 47 anos. "Ele vivia dizendo: "Pai, quero que você me surpreenda". Agora, não há um dia em que eu não diga a ele: "Rique, é a sua vez de nos surpreender"."

No único momento do dia em que é possível vê-lo - das 16 às 17 horas -, a família tenta dar a Henrique um pouco do que lhe foi tirado. "Logo que chego, eu o apalpo, para que ele sinta que está vivo, que estamos ao seu redor. Depois, coloco um pouco de música, principalmente Little Wonders (Pequenos Milagres, de Rob Thomas)", contou a mãe, que está afastada do emprego desde 21 de dezembro, data da agressão. "Às vezes, ele chora."

A família também procura contar a Henrique os fatos mais importantes da vida que ele não está conseguindo levar. Foi de olhos fechados, deitado no leito de um quarto conjunto do prédio da UTI de Traumas, que Henrique ouviu, por exemplo, que aquela sexta-feira era 16 de abril - dia de seu 22.º aniversário.

Também ouviu que os primos Heloísa e Léo, seus "xodós", engatinhavam e começavam a andar. Numa tarde de março, contaram que ele já poderia se considerar profissional formado - sua turma de Design, na Uniban, havia colado grau. E foi do mesmo leito que Henrique ouviu a decisão do irmão mais novo: Murilo, de 17 anos, decidira fazer Engenharia Mecatrônica no vestibular. "Acorda logo, Henrique", disse Murilo. "Acorda que eu decidi: você vai inventar, eu vou produzir."

"Nós contamos tudo isso para ele ficar feliz, para saber que tudo o que ele queria está dando certo", disse o pai. No apartamento da família, os pais guardam, esperançosos, objetos do designer. Numa caixa, estão guardados 300 bonecos de resina - "toy arts", que o rapaz havia projetado para começar a vender neste ano. "Decidi deixá-los bem guardados, parados ali", disse o pai. "Estamos esperando o Rique acordar."

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