7 km separam os bairros com mais e menos homicídios

Enquanto Campo Grande não teve nenhum assassinato nos nove primeiros meses deste ano, Parque Santo Antônio registrou 34

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2011 | 03h06

Os dois distritos ficam na zona sul, separados pelo Rio Pinheiros e pelas Pontes do Socorro e João Dias. A cerca de 7 quilômetros de distância, são vizinhos no mapa da cidade. Mas, apesar da proximidade, Campo Grande e Parque Santo Antônio registraram, respectivamente, a menor e a maior quantidade de assassinatos nos primeiros nove meses do ano em São Paulo.

No primeiro bairro, que fica do lado mais rico da cidade, não houve nenhuma morte. Já o vizinho, do outro lado da ponte, teve 34 homicídios no período.

O Parque Santo Antônio, que fica no distrito Jardim São Luís e ganhou fama nas letras do Racionais MC's, é historicamente uma das regiões mais violentas de São Paulo. Localizado nas proximidades da Represa do Guarapiranga, o bairro foi ocupado na primeira metade do século 20, principalmente por chácaras.

A rápida industrialização mudou o perfil da região, que cresceu desordenadamente depois da metade do século. Nos anos 1970 e 1980, os sítios foram subdivididos em pequenos lotes de 50 m², para onde se mudaram os migrantes que vinham trabalhar nas indústrias da vizinhança. No fim dos anos 1980, intensificaram-se as invasões.

Para lidar com a desordem dos bairros que surgiam, esses núcleos se tornaram berços de movimentos sociais que cresceram com o apoio dos padres das Comunidades Eclesiais de Base. Paralelamente, para tentar coibir o roubo nessa parte esquecida da cidade, grupos de policiais e de justiceiros iniciaram nos anos 1980 uma série de assassinatos na região. É quando a engrenagem da violência começa a girar.

Nos anos seguintes, a intensificação do tráfico de drogas e a rivalidade entre gangues de jovens locais aumentaram os assassinatos rapidamente. Era como se homicídios se tornassem uma ferramenta tolerada para sobreviver ao tenso cotidiano local. Os assassinatos passaram a cair só em 1999.

"Quando cheguei, em 1976, havia 64 ruas, nenhuma delas com asfalto. Não havia escolas nem hospitais. Começamos a nos organizar com o apoio da Igreja, unidos em movimentos sociais", conta a aposentada Maria José Cavalcanti, de 75 anos. "Hoje os assassinatos diminuíram e não são como nos anos 1990. Mas ainda existem."

Mesmo com uma taxa de assassinatos mais baixa, o Parque Santo Antônio continuou a liderar o ranking entre bairros.

Sem desordem. Do outro lado da ponte, o bairro Campo Grande foi afetado pela história de maneira oposta. Já no começo do século era um bairro residencial. Em 1953, foi urbanizado pela Cia. City, a mesma que desenhou o Jardim América e o Pacaembu. Não houve espaço para urbanização improvisada nem justiceiros e policiais matando jovens para tentar controlar a desordem.

"Apesar de estarem em regiões parecidas, perto das metalúrgicas que foram a alavanca da industrialização na cidade, a história do bairro de Campo Grande é mais parecida com a de um bairro como Perdizes, na zona oeste, do que a do vizinho do outro lado da ponte", afirma o aposentado Teófilo Tavares Paiva, morador do Campo Grande há 25 anos e ativista em movimentos sociais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.