447: França acha caixas e vai atrás de corpos

Após retirada com sucesso de módulo de voz, operação prossegue no Atlântico

Andrei Netto / Correspondente, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2011 | 00h00

PARIS

A um mês de completar dois anos, a queda do voo 447 da Air France (Rio-Paris) no Atlântico está prestes a deixar de ser um mistério. O passo decisivo foi dado anteontem, quando se resgatou a segunda das duas caixas-pretas do A330. Sobre o resgate dos corpos, o governo francês silenciou, afirmando que a decisão caberá à Justiça, mas fontes ligadas à investigação disseram à Agência France Press que "uma tentativa" será feita em até 48 horas.

O Cockpit Voice Recorder (CVR), aparelho que registrou os últimos 120 minutos de diálogos da tripulação, além de ruídos e alarmes sonoros, foi localizado às 17h50 - horário de Brasília - e trazido à superfície cinco horas mais tarde pelo submarino-robô Remours 6000, que equipa o navio Ile de Sein. A informação só foi divulgada na madrugada de ontem pelo escritório francês de investigação (BEA).

Ao contrário da primeira caixa - o Flight Data Recorder (FDR), gravador dos dados eletrônicos do voo, encontrado no domingo -, o CVR foi localizado "inteiro", a dez metros da primeira caixa. Estava preso ao chassi e à baliza que emitiu sinais sonoros nos primeiros 60 dias após o acidente. Ainda resta uma dúvida sobre a resistência das cápsulas que protegem os gravadores, dois microchips ultrassensíveis.

De acordo com o diretor do BEA, Jean-Paul Troadec, "a caixa-preta está inteira". "O chassi, o módulo e mesmo o cilindro da baliza estão lá. Globalmente, o aspecto exterior da caixa é correto, em bom estado."

Como foi feito no domingo com o FDR, o CVR foi depositado em uma caixa cheia de água do mar - o que a manterá no mesmo ambiente dos últimos dois anos, reduzindo o risco de degradação. A seguir, o recipiente foi lacrado por oficiais de Justiça da França com um adesivo indicando o número do processo, a inscrição "Homicídio involuntário" e um selo inviolável. As duas caixas esperam agora a chegada de um navio da Marinha que as recolherá e as levará para Caiena, capital da Guiana Francesa, um dos territórios além-mar da França.

De lá, serão transportadas de avião para Paris e então para a sede do BEA, em um percurso de mais uma semana. Em Le Bourget, onde está localizado o laboratório de perícia, especialistas abrirão as caixas, retirarão os microchips e realizarão a leitura das informações, com a ajuda de um software especial.

Sobre os possíveis resultados, há cautela. "Nós já encontramos gravadores que conseguimos explorar dez anos depois do acidente. Mas eles tinham (especificações) técnicas diferentes", advertiu Troadec. "Se nós conseguirmos ler os dois gravadores, saberemos o que aconteceu."

Buscas. Os trabalhos no oceano não estão encerrados. Por prudência, outras peças da aeronave, consideradas importantes para explicar as causas do acidente, já foram identificadas e serão recolhidas nos próximos dias, incluindo leme e flaps. Quanto aos corpos, Maarten Van Sluys, integrante da Associação dos Familiares de Vítimas do Voo AF-447, foi informado por e-mail pelo BEA de que o embaixador Philippe Vinogrodoff "está preparando uma carta a todas as famílias". Há 20 dias, o Estado antecipou que o governo francês considerava remotas as chances de conseguir recuperar corpos.

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