Fernando Vivas/Estadão
Fernando Vivas/Estadão

40 anos após 1º bebê de proveta, meta agora é reduzir nascimento de gêmeos

Precisão de técnicas de seleção e congelamento de embriões na fertilização in vitro já permite a transferência de um só ao útero com taxas equivalentes de sucesso. Segundo os médicos, a vantagem é evitar complicações para a mulher e para o bebê

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

Gael tem só 3 anos, mas já chama pelo irmão Benício. Em agosto, a família de Gabriela Lacerda, de 35 anos, estará completa, graças a uma ajudinha da ciência. Os embriões de Gael e Benício foram formados na mesma época pela fertilização in vitro – mas, em vez de dividirem espaço no ventre, um deles “esperou” congelado em laboratório. Entre uma barriga e outra, Gabriela teve tempo de se organizar. “Está tudo pronto e Gael está na expectativa.” 

Aumentar as gestações únicas – como aconteceu com Gabriela – e diminuir as de gêmeos é a meta de clínicas de reprodução assistida no Brasil e pelo mundo. Quarenta anos após o nascimento do primeiro bebê de proveta, em julho de 1978, no Reino Unido, a precisão de técnicas de seleção e congelamento de embriões na fertilização in vitro já tem permitido a transferência de um só ao útero com taxas equivalentes de sucesso. 

Segundo os médicos, a vantagem é evitar complicações para a mulher e o bebê. “Mesmo em gêmeos, há o risco da prematuridade. E isso pode comprometer a criança para o resto da vida”, diz Joji Ueno, especialista em reprodução assistida. Em 2011, resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu o número máximo de embriões que podem ser levados ao útero materno. 

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Em mulheres de até 35 anos, são permitidos até dois. O número sobe para três para aquelas com idades de 36 a 39 anos e chega a quatro para as de 40 anos ou mais. “Antes, colocávamos o que tivesse. Nos últimos dois, três anos, sabemos perfeitamente quais são os melhores e piores. Por que não colocar um só?”, indaga Marcio Coslovsky, especialista em reprodução humana há mais de 20 anos. 

Os últimos dados da Rede Latinoamericana de Reprodução Assistida (Redlara) mostram elevação das transferências de um só embrião no País, principalmente em mulheres mais jovens. Em 2011, a proporção era de 13,9% do total; em 2014, de 17,5%. Para Adelino Amaral, diretor da Redlara no Brasil, essa taxa ainda deve aumentar. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tem dados de quantos embriões são usados em cada procedimento. 

Após tentar engravidar naturalmente, a bibliotecária Munira Possebon, de 31 anos, buscou uma clínica de reprodução assistida e conseguiu, com a fertilização in vitro, oito embriões – todos de boa qualidade –, mas decidiu transferir só um e congelar os demais após sugestão do médico. “Achávamos que colocando dois ou três, as chances aumentariam, mas o médico explicou que não e havia risco.” Ela não se arrepende. Após uma gravidez conturbada, Lucas nasceu saudável, há 1 ano e 3 meses. 

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Na clínica do ginecologista Pedro Monteleone, em São Paulo, a gravidez única é regra e não exceção. “A sugestão é transferir um embrião por vez, sem impacto negativo na taxa cumulativa de gravidez”, diz ele, que também atua no Centro de Reprodução humana do Hospital das Clínicas. Por lá, Monteleone já inicia o mesmo protocolo. 

Testes genéticos feitos em parte dos embriões ajudam a selecionar um só, com mais viabilidade de “vingar”. Mas a recomendação desse exame – considerado invasivo e que detecta anomalias cromossômicas e síndromes, como a de Down – não é consenso. 

Para ajudar na triagem dos que têm mais chance de dar certo, clínicas de ponta também fazem um “big brother” em nível celular. “Câmeras filmam embriões desde a fertilização até o 5.º dia. Estabelecemos se eles se fragmentaram em tempo certo e qual tem a melhor nota”, explica Maurício Chehin, médico da clínica Huntington.

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Desafios. Apesar de recomendável, a transferência de só um embrião esbarra no custo. Um ciclo de fertilização in vitro é caro – cerca de R$ 20 mil – e nem todo casal está disposto a retomar o processo para ter mais filhos. Além disso, as técnicas mais recentes para encontrar o “superembrião” elevam o preço – o teste genético e a vigilância por câmeras podem custar mais de R$ 2 mil adicionais. 

Outra questão é cultural. Para Nilka Donadio, da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, tem de haver diálogo entre a equipe e os futuros pais. “Se o casal não engravida, não olha com bons olhos o fato de ter transferido só um embrião.”

Europa transfere só 1; nos EUA, diretriz considera qualidade

Os esforços no Brasil para redução das gestações de gêmeos vêm na esteira de experiências internacionais. Na maioria dos países europeus, onde a fertilização in vitro é custeada pelo governo, se transfere um embrião. A taxa de gestações gemelares era de 14% em 2015 na Europa e o índice de transferências de embriões individuais continua a aumentar – de 11%, em 1997, para 38% em 2015, segundo dados divulgados neste mês pelo Comitê Internacional de Monitoramento de Reprodução Assistida. 

O órgão também calcula que, desde o nascimento do primeiro bebê de proveta, em 1978, mais de 8 milhões de crianças vieram ao mundo pela mesma técnica. 

Nos EUA, onde o custo do tratamento fica a cargo dos casais, transfere-se, em média, dois embriões. Mas diretrizes recentes da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva recomendam usar um em casos de jovens e embriões de boa qualidade. 

Adelino Amaral, da Câmara Técnica de Ginecologia e Obstetrícia do Conselho Federal de Medicina (CFM), pretende levar para debate a possibilidade de reduzir para dois o máximo de embriões transferidos por mulher de 36 a 39 anos – hoje, permite-se até três nesta faixa etária.

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Testes genéticos não são consenso e abrem debate sobre bioética

Do ponto de vista técnico, ainda são considerados invasivos; já contestação filosófica destaca o risco de seleção de pessoas

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

Um dos mecanismos para reduzir as taxas de gestações múltiplas, os testes genéticos em embriões não são consenso. Do ponto de vista técnico, são considerados invasivos. Isso porque, para que seja analisado, o embrião tem de passar por uma biópsia, com corte a laser.

“Imagine um embrião com pouco mais de duas centenas de células. Tirar quatro a oito células, quer queira ou não, agride”, diz Hitomi Nakagawa, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida. O teste, diz, é contraindicado para mulheres jovens, que têm menos riscos de anomalias genéticas. 

Márcia Riboldi, diretora da Igenomix Brasil, uma das empresas que faz os diagnósticos, defende o método. “Temos uma precisão de 99%”, afirma. “Com isso, as taxas de gestação foram aumentando.” Segundo ela, o próximo passo é desenvolver técnicas para analisar apenas os resíduos deixados pelo embrião – sem tocá-lo. 

Outro ponto de debate é de cunho ético. Além das mutações cromossômicas que tornariam a implantação do embrião inviável, o exame traz resultados de condições genéticas que não são incompatíveis com a vida, como a Síndrome de Down. Cabe aos casais a decisão de transferir estes embriões. 

O Conselho Federal de Medicina (CFM) permite testes para o diagnóstico de alterações genéticas causadoras de doenças e o descarte, mas não detalha circunstâncias em que os embriões podem ser excluídos. Em nota, o CFM informou que “permanece atento” a esse tema e disse que uma “proposta de atualização da regra” pode ser levada ao plenário do órgão.

“O teste genético é uma forma de eugenia, de dizer que alguns seres não têm direito à vida”, diz o biólogo e sociólogo Francisco Borba, do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “É negado o direito de a criança ser tal qual ela é.” 

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