Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Artigo: 365 dias depois, o Pinheiros morre de novo. E, desta vez, de covid-19

Completado, no sábado, um ano de vida do projeto, o Rio Pinheiros não sofreu uma gota de limpeza. E vem aí a agenda eleitoral.

Marcelo Reis*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 05h00

Na lista de prioridades do governo do Estado de São Paulo já era esperado que a despoluição da bacia do Rio Pinheiros deixasse de estar nos primeiros lugares, certo? Errado. Pois a limpeza, se estivesse sendo feita com eficiência, traria as benesses do saneamento a 14 afluentes e, consequentemente, a todas as comunidades carentes por onde os córregos passam. Essas comunidades, até agora, não têm acesso a rede de esgoto e água tratada. 

Certamente, as pessoas estão se contaminando mais e morrendo por causa dessa lacuna social, simplesmente porque não conseguem lavar as mãos. Como estudos do Google e de outras plataformas já apontaram, essa crise pandêmica é também social no Brasil: ela não é igualitária e está matando mais na periferia, sim. É uma pena o Brasil sofrer da imensa incapacidade de planejar a médio e longo prazos. Somos reféns do imediatismo e, no caso da política, do imediatismo midiático. Como todo e qualquer país pobre em desenvolvimento, imprevisto é o que não falta para mudar o rumo dos planos eleitoreiros.

No dia 18 de julho de 2020, completamos 365 dias, ou 1 curto longo ano, desde o início do projeto Novo Rio Pinheiros, iniciado pelo governo do Estado e que unificou todos os agentes responsáveis: Sabesp, EMAE, DAEE, CETESB e a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Uma inteligente decisão em prol do saneamento básico das comunidades adjacentes e, por consequência, da limpeza do rio em questão. 

Matematicamente, o governo teve de junho de 2019 a março de 2020 para trabalhar a todo vapor e somente os últimos três meses em ritmo de pandemia. Mas o Rio Pinheiros não sofreu uma gota de limpeza e melhoria. Para nós, brasileiros comuns, sem acesso aos números corretos do coronavírus, seria ingenuidade pedir acesso aos números da transformação das nossas águas, tão vitais à qualidade de vida das pessoas que mais precisam. 

Infelizmente, vem se desenhando no horizonte a mesma história de sempre. Ou seja, perdemos este ano e teremos apenas um ano e meio até o início da agenda eleitoral de 2022, quando tudo vai parar de novo. “Está mantido o cronograma para a entrega, até dezembro de 2022, do Rio Pinheiros limpo, em condições adequadas e no padrão internacional de um rio considerado limpo... Será um rio inodoro, sem nenhum cheiro, odor, e sem nenhum lixo de superfície e com vida dentro”, prometeu o governador, não podemos esquecer.

O Movimento Volta Pinheiros está perdendo a confiança de que o governo irá cumprir o que prometeu, afinal, apesar de não termos tido uma intempérie jurídica, já temos um responsável invisível para culpar: a covid-19.

Uma tristeza profunda para nós, brasileiros, principalmente os 3,3 milhões de paulistanos que vivem às margens dos córregos das bacias do Pirajuçara, Jaguaré, Cachoeira, Guido Caloi, Cordeiro e Água Espraiada, entre outras. Só nos resta torcer para que o governador, a Sabesp, os órgãos responsáveis e os consórcios licitados por performance mantenham o compromisso com o projeto. A Sabesp acaba de anunciar que assinou os quatro últimos contratos de coleta e de tratamento de esgoto das sub-bacias e que a próxima etapa do plano é a contratação das unidades de recuperação da qualidade da água dos córregos de áreas informais, chamada de URQs. Tudo muito confuso, redundante, lento e pouco transparente. Não obstante, a aprovação do projeto de lei que moderniza a regulação dos serviços de saneamento básico, depois de mais de dois anos de tramitação no Congresso e no Senado, traz alguma esperança, pois possui dispositivos que prometem levar à universalização do fornecimento de água dos córregos e da coleta de esgoto até 2033 – ou até 2040 em casos excepcionais. Por outro lado, esse novo marco regulatório não tira o mérito do governador, caso consiga cumprir sua promessa até 2022, uma década antes do oficialmente estabelecido pelo marco. 

Contudo, juramentos vazios, novas leis, burocracia em escala nacional, difusão da responsabilidade e falta de transparência são prato cheio para que nenhum gestor público, mais uma vez, assuma a incumbência desse problema secular. Na guerra das nomenclaturas marquetológicas, esperamos que o “Novo Rio Pinheiros” vença o “novo coronavírus” e que a sociedade não aceite que continuar convivendo até 2040 com um rio podre seja o tal do “novo normal”.

*É PUBLICITÁRIO, EMPRESÁRIO E IDEALIZADOR DO MOVIMENTO #VOLTA PINHEIROS

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